Secas históricas nos EUA e na Europa colocam reúso potável no radar do Brasil
Casos de Tucson e Barcelona, apresentados em painel do Congresso ALADYR Brasil 2026, mostram que segurança hídrica exige planejamento de décadas, não apenas respostas a crises pontuais
Enquanto o Lago Mead, nos Estados Unidos, registrou em agosto o nível mais baixo desde que foi criado, há nove décadas, rios europeus também têm enfrentado níveis historicamente baixos nos últimos anos. Duas cidades já têm respostas concretas para a escassez hídrica agravada pelas mudanças climáticas. Tucson, no Arizona, e Barcelona, na Espanha, constroem há anos estratégias de diversificação de fontes que combinam reúso, dessalinização e planejamento de longuíssimo prazo, e apontam caminhos que o Brasil ainda discute pouco.
Tucson: mais de dez anos de água em reserva
Com 125 anos de história, a Tucson Water é a segunda maior concessionária de água potável do Arizona, atendendo cerca de 750 mil pessoas. Historicamente dependente do Rio Colorado, a cidade aprovou em outubro de 2023 o “One Water 2100 Plan”, que integra água de superfície, subterrânea, pluvial e reciclada em um único sistema de planejamento. Graças a essa estratégia, Tucson já acumula mais de dez anos de água armazenada em reservas subterrâneas, um colchão de segurança raro entre cidades do sudoeste americano.

A cidade também construiu uma estação de purificação avançada para reciclagem potável direto, com apoio de US$ 86,6 milhões do governo federal, obtidos em troca da redução da retirada de água do Rio Colorado. O Arizona foi um dos primeiros estados americanos a regular esse tipo de reúso, em um processo puxado pela própria concessionária junto ao governo estadual. Comunicação com a população foi tratada como fator decisivo: Tucson mantém um programa educativo de dois anos sobre o tema e compartilha identidade visual com Phoenix e Scottsdale, sob a marca conjunta “Pure Water”, para reforçar a confiança pública.
Barcelona: da crise recorde de 2024 à meta de reduzir a dependência do rio
O caso de Barcelona mostra a velocidade com que uma crise hídrica pode se instalar. O reservatório da bacia Ter-Llobregat, que abastece a região metropolitana de 5,2 milhões de habitantes, chegou a cair para 14,8% de sua capacidade em março de 2024, mínimo histórico da série, no auge da seca que atingiu a Catalunha entre 2022 e 2024. Mesmo com os reservatórios em 100% da capacidade, a região tem autonomia para cerca de 14 meses sem chuvas.
No pico da crise, dessalinização e água regenerada combinadas chegaram a suprir mais da metade do consumo metropolitano, e os reservatórios se recuperaram para 81,5% até junho de 2025. A meta estratégica da região é chegar a uma composição de 60% de água regenerada e 25% dessalinizada, e no máximo 15% de águas subterrâneas, priorizando o reúso por seu menor custo energético. Parte do investimento em infraestrutura não convencional contou com apoio direto do governo catalão, reduzindo o peso do custo repassado ao consumidor final.
“Trazer para o Brasil experiências como as de Tucson e Barcelona, que normalmente só acompanhamos de longe, em relatórios e notícias, foi um dos principais objetivos da nossa participação no Congresso ALADYR. Ver de perto como essas cidades estruturaram suas respostas à escassez, com décadas de antecedência, é um convite para pensarmos a segurança hídrica brasileira da mesma forma, como um projeto de longo prazo”, afirma Márcio José, CEO da Aquapolo e representante do Brasil na ALADYR.
Reúso potável: uma fronteira que o Brasil ainda não atravessou
O potencial de aproveitamento da água reciclada vai muito além do uso industrial. Cerca de 30 milhões de pessoas no mundo já consomem água reciclada purificada para beber, em Singapura, na Espanha, em Israel e nos Estados Unidos, especialmente na Costa Oeste, onde a Califórnia autorizou recentemente o uso de água reciclada diretamente nas redes de distribuição potável, decisão que deve beneficiar cerca de 40 milhões de pessoas. Nesses locais, o consumo de água reciclada já é um hábito incorporado à rotina da população, fruto de anos de trabalho de conscientização de governos, agências e empresas de água.
No Brasil, a Aquapolo, maior planta de reciclagem de água industrial da América do Sul, em operação desde 2012 no Polo Petroquímico de Capuava, em São Paulo, domina a tecnologia de reciclagem de água para uso industrial. O reúso potável, porém, exige uma etapa adicional de tratamento que o país ainda não regulamentou, o que hoje impede que soluções desse tipo avancem para o consumo humano no país.
Para Márcio José, CEO da Aquapolo e mediador do painel, o valor dos dois casos está em levar essa discussão para o Brasil, não apenas para São Paulo, mas como referência para diferentes cidades brasileiras que enfrentam desafios de abastecimento. Mais do que discutir se o reúso funciona em determinada escala, o país precisa debater mais o tema e avançar na implementação de novos projetos.
“O que os dois casos têm em comum é que eles vão além de resolver o problema durante a crise, eles estão olhando para um futuro que não é próximo. Tucson tem dez anos de água reservada. Barcelona tem um plano para chegar a zero na utilização de água do rio. Não são exemplos de adaptação apenas para o momento da crise, e sim para um futuro mais longo. Isso se chama resiliência e segurança hídrica”, afirma Márcio José, CEO da Aquapolo e representante do Brasil na ALADYR.
Sobre a Aquapolo Ambiental
A Aquapolo é resultado de parceria entre a GS Inima Industrial e a SABESP, desenvolvido como uma solução para gestão hídrica junto ao Polo Petroquímico de Capuava e indústrias da Região do ABC Paulista. Desde 2012, quando iniciou sua operação, o empreendimento já forneceu mais de 140 milhões de metros cúbicos de água de reuso, cujo volume seria suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes pelo mesmo período de 13 anos. Leia mais sobre em: https://www.aquapolo.com.br/
Autoria: Fernanda Casemiro | [email protected]

