Lira Marianense

Lira Marianense

Por Antônio de Oliveira

Triste… Tristemente triste. No poema Lira Itabirana, publicado em 1984, Carlos Drummond de Andrade previu um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil, ocorrido poucas décadas depois, em 2015. Parece, de fato, uma previsão, uma predição, uma profecia, um alerta a que não se deu a mínima, pois coisa de poeta.

vista-aerea-rompimento-barragem-em-bento-rodrigues-MG

I     “O Rio? / É doce. A Vale? Amarga. / Ai, antes fosse mais leve a carga.
II    Entre estatais / E multinacionais, quantos ais!
III  A dívida interna. / A dívida externa / A dívida eterna.
IV  Quantas toneladas exportamos / De ferro? Quantas lágrimas disfarçamos / Sem berro?”

acidente-em-mariana-mg-2015

Hoje a lira é marianense, o rio é amargo, como é amarga a tragédia. A carga, por demais pesada. Aos turbilhões, a lama corre em direção ao oceano, em lenta procissão, mas não tão lenta assim. Irreversivelmente. Quantos ais! As dívidas aí estão, também pesadamente inflacionadas. Um misto de irresponsabilidade, incompetência, interesses disfarçados. As lágrimas é que não mais se disfarçam. Aos gritos de ais.

rompimento-barragem-samarco-em-bento-rodrigues-2015

Confidência do Itabirano. Para Drummond, “Itabira é apenas uma fotografia na parede”. Mas como já doía! Confidência do marianense. Em Bento, que nem é mais bento, sequer um retrato nas paredes, pois paredes não há mais. É que não restou pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, nem parede de pé. Um ambiente de desolação, um meio ambiente agredido, uma fauna praticamente extinta. Espetáculo dantesco, cenário de dor.

desabrigados-acidente-Mariana-2015

E agora, José? E agora, Carlos Drummond? E agora…Tudo acabou. “Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta.” E agora, brava gente, brasileira? Ante os rombos bilionários nos cofres públicos, o rompimento da Barragem do Fundão é imagem metafórica de rejeitos que envergonham nosso país. Aliados do governo, aliados de Cunha, aliados de Renan… Haverá aliados do povo?

Para Heráclito, um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, pois a água se renova. Era uma vez um rio, doce, que… tinha água.

O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com

Author: Tomé Ferreira

Graduando em TECNOLOGIA EM MULTIMÍDIA DIGITAL pela UNISUL Iniciei minha carreira como “Desenhista” de prancheta. Arte-finalizava tudo manualmente também fazendo trabalhos esporádicos de Jornalismo Social. Fundei o Portal Duniverso em 2009 iniciando de vez minha saga pelo jornalismo o qual me apaixonei. Vida inteligente na WEB.

Share This Post On

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *