UCBIO 2026: Paul Watson e John Terborgh defendem áreas protegidas efetivas

UCBIO 2026: Paul Watson e John Terborgh defendem áreas protegidas efetivas

A Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade reuniu especialistas da agenda da conservação em Curitiba

Curitiba (PR) – Na última terça-feira (9/06), o ambientalista canadense Paul Watson deixou uma mensagem clara sobre os desafios da conservação ambiental global durante o encerramento da Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade – UCBIO 2026, realizada em Curitiba. Para o fundador da Sea Shepherd Conservation Society e uma das figuras mais influentes do ativismo ambiental contemporâneo, a proteção da biodiversidade depende da capacidade de garantir a implementação efetiva, gestão adequada, fiscalização e proteção permanente das unidades de conservação.

Watson criticou a distância entre os compromissos assumidos em conferências ambientais e sua efetiva implementação. Para ele, leis, acordos e tratados internacionais só produzem resultados quando acompanhados de fiscalização, recursos, capacidade de aplicação e envolvimento da sociedade civil. 

“Com o desenvolvimento dos parques nacionais e das áreas marinhas protegidas, no Brasil e em todo o mundo, precisamos ter uma coisa em mente: elas são totalmente inúteis sem fiscalização. Se vamos criar áreas protegidas, precisamos de guarda-parques. Precisamos de pessoas para fazer cumprir a lei, e não de pessoas comprando políticos para conseguir o que querem. Isso é indispensável para que essas áreas tenham algum significado”, afirmou.

Após participar no ano passado da COP30, em Belém, Paul Watson está de volta ao Brasil para uma série de agendas voltadas à conservação ambiental e à proteção do oceano, entre elas a participação na UCBIO, conferência que recoloca no centro do debate nacional o futuro das unidades de conservação e das políticas de proteção da natureza.

Para ele, o Brasil ocupa uma posição estratégica para a conservação da biodiversidade global e precisa fortalecer a proteção tanto de seus ecossistemas terrestres quanto marinhos. “Aqui no Brasil vocês têm o verde e o azul. Têm a floresta tropical e têm o oceano. E é absolutamente necessário proteger os dois”, destacou.

Conhecido mundialmente por sua atuação em defesa da vida marinha e no combate à caça comercial de baleias — razão pela qual ficou conhecido como o “bom pirata” —, Watson ressaltou a importância dos oceanos para a manutenção da vida na Terra e alertou para os impactos da pesca predatória e da degradação dos ecossistemas marinhos. “Se o fitoplâncton (responsável por grande parte da produção de oxigênio do planeta) desaparecer, nós desaparecemos. Se o oceano morrer, nós morremos.”

Referência global da conservação

A conferência também marcou o retorno ao Brasil do ecólogo norte-americano John Terborgh, uma das maiores referências mundiais em conservação da natureza. Há 26 anos, ele participou da segunda edição do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), evento que inspirou a criação da UCBIO.
Terborgh destacou que os parques continuam sendo os principais redutos da biodiversidade e alertou que alcançar a meta global de proteger 30% do planeta até 2030 exigirá ampliar e fortalecer as áreas protegidas. 

Ao abordar os desafios da conservação, o professor emérito da Duke University, ressaltou a importância do diálogo e da mobilização social para superar resistências e construir consensos. “Sempre que tentamos fazer algo novo encontramos oposição. Precisamos encontrar maneiras de trazer essa oposição para o diálogo”, afirmou.

O pesquisador ressaltou ainda a responsabilidade do Brasil na proteção de algumas das maiores riquezas naturais do planeta e reforçou que a conservação é uma tarefa permanente. “Foi a voz das pessoas que tornou possíveis os avanços da conservação no século XX. Não podemos perder essa capacidade de mobilização”, destacou.

Carta de Curitiba reúne recomendações para fortalecer a conservação

O último dia da conferência também foi marcado pela entrega da Carta de Curitiba, documento aprovado em plenária pelos participantes, reunindo propostas e recomendações para fortalecer a conservação da biodiversidade e a gestão das unidades de conservação brasileiras.

Entre os principais pontos, o texto defende a ampliação dos investimentos públicos nas áreas protegidas, o fortalecimento da fiscalização ambiental, a regularização fundiária das unidades de conservação e a tomada de decisões baseadas em critérios técnico-científicos.

A carta reafirma ainda a importância das Unidades de Conservação de Proteção Integral como instrumentos fundamentais para a preservação da biodiversidade brasileira e destaca a necessidade de assegurar sua efetiva implementação e proteção.

Créditos de biodiversidade

A UCBIO 2026 entrou para a história como o primeiro evento do mundo a compensar sua pressão sobre a biodiversidade por meio de créditos de biodiversidade certificados. A iniciativa utilizou a metodologia internacional desenvolvida pelo Instituto LIFE, que calcula os impactos gerados por eventos em dimensões como geração de resíduos, consumo de água, energia, emissões de gases de efeito estufa e uso do solo, permitindo sua compensação por meio de Créditos LIFE de Biodiversidade auditados e verificados.

Para a realização da conferência, foram adquiridos cerca de 900 Créditos LIFE de Biodiversidade provenientes de ações de conservação associadas ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, em Santa Catarina. A iniciativa faz da UCBIO o primeiro evento do planeta a compensar formalmente seus impactos sobre a biodiversidade dentro desse novo marco metodológico.

Instituto Rã-bugio recebe Prêmio Miguel Milano

Durante a cerimônia de encerramento, também foi realizada a entrega da primeira edição do Prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza ao Instituto Rã-bugio. A organização foi reconhecida por sua atuação em educação ambiental, conservação da biodiversidade e defesa da Mata Atlântica, contribuindo para a sensibilização da sociedade e para a proteção de espécies e ecossistemas ameaçados.

Promovido pela Rede Pró-UC e a Associação Caatinga, o evento reuniu centenas de especialistas, pesquisadores, estudantes, gestores públicos, representantes de organizações da sociedade civil e lideranças do movimento conservacionista brasileiro para debater caminhos para fortalecer a proteção da biodiversidade e das unidades de conservação no país.

“Estamos felizes em retomar esse espaço tão relevante de discussão sobre a agenda da conservação nacional, posicionando novamente as unidades de conservação, em especial as de proteção integral, no centro de uma estratégia para a conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas”, reforçou Miguel Milano, coordenador da conferência. 

Autoria: Assessoria de Imprensa UCBIO
Daniella Fernandes | Rhanna Viana Sarot
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