Marina Silva é a força que veio da floresta

Marina Silva é a força que veio da floresta

PODER FEMININO

Criada nos seringais, tomando banho de rio na floresta amazônica, a acriana se prepara para o seu maior passo político: disputar a cadeira que Lula deixará vaga no Palácio do Planalto. Primeira brasileira a colocar o meio ambiente na pauta das discussões nacionais, a senadora (dois casamentos, quatro filhos e um histórico de saúde frágil) revela aqui que também gosta de escrever poesia.

Marta Góes / Revista Claudia – 12/2009

A senadora Marina Silva, 51 anos, mundialmente conhecida pela defesa da Amazônia, a maior reserva de água doce do planeta, toma banho de olho numa ampulheta que ganhou do príncipe Albert, de Mônaco, quando foi receber o prêmio Mudanças Climáticas, conferido pela fundação que ele preside, em outubro. Trata de fechar as torneiras em menos de cinco minutos, antes que o compartimento superior do vidrinho esvazie. Mais do que rotina, cronometrar o banho faz parte da agenda política de Marina e evoca sua história.

Entrevista Programa do Jô parte 01:

Entrevista Programa do Jô parte 02:

 

 

Ela sabe que pode influir com seus gestos para grandes transformações, mesmo que o caminho, de tão longo, pareça impossível. Era improvável que a ex-empregada doméstica Maria Osmarina chegasse ao Senado, que uma ex-adolescente analfabeta assumisse o comando do Ministério do Meio Ambiente, que uma garota da floresta fosse reconhecida como cidadã do mundo. Mas ela se esforçou. Começa a desenhar-se agora um novo capítulo de sua vida política: a candidatura à Presidência da República nas eleições de 2010, pelo Partido Verde. Com dinheiro curto e os poucos minutos de que o PV dispõe na TV, vai tentar convencer os eleitores de que é viável crescer sem destruir o planeta, que é urgente fazê-lo e que, se conquistar o apoio da sociedade, Marina é a pessoa certa para conduzir esse processo.

 

Imagem: planetasustentavel.abril.com.br
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“Será uma luta de David contra os Golias”, compara o empresário Guilherme Leal, cotado para vice da chapa. Um dos donos da Natura, maior empresa de cosméticos do país, ele é estreante na política, mas bem experiente na militância pela sustentabilidade. “Para nós, conseguir com a campanha que o país olhe para si e avance em direção a novas práticas e aspirações coletivas também é ganhar”, diz. Marina se sente bem posicionada. “Lula foi um bom desbravador para a questão da origem humilde”, aplaude. Está convencida de que ser mulher é vantagem: Nossa sociedade tem o espírito desafiador. Depois do sociólogo (referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) e do operário, por que não uma mulher?”

 

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Peixe Pirarucu – Imagem: br.viarural.com

 

A presença de outra candidata, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com quem se chocou no governo, tampouco lhe parece um complicador: “Como os homens bisbilhotam as revistas de mulher, é bom lembrar a eles que houve sempre cumplicidade de gênero entre as ministras e que não tive apenas impasses com Dilma, vivemos muitos encontros”. Entre estes últimos, ela aponta o modelo que ambas ajudaram a elaborar para o setor elétrico e para a produção de petróleo e gás, contemplando o impacto ambiental. Os embates, que culminaram com a reação violenta dos desmatadores contra medidas do governo, precipitaram sua demissão, em 2008. “É uma corrida de 4X4”, diz Marina. “Cada um leva o bastão até onde pode, mas tem que levar.” Quando Marina não está viajando, as salas apertadas de seu gabinete no Senado fervem.

Ao lado de um pequeno cartaz em que se lê “Chico Mendes vive”, a porta permanece aberta, e os assessores, interrompidos pelo entra e sai, levam muito tempo para conseguir concluir algum assunto. A saúde de Marina é frágil – tratamentos de malária, hepatite e leishmaniose a intoxicaram, e ela está sujeita a dores de cabeça, náuseas e, vez por outra, a uma infecção no fêmur, que dificulta o andar e produz dores cervicais. Tem muitas restrições alimentares, como enlatados e algumas comidas industrializadas. E, no entanto, parece incansável. Sua assessora Jane Vilas Bôas brinca que de tempos em tempos a senadora troca dois assessores exaustos por outros novos e segue em frente.

Entrevista Programa do Jô parte 03:

 

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Macaco Barrigudo – Imagem: br.viarural.com

 

BIOJOIAS, SEUS ADORNOS

Marina não se maquia – é alérgica a cosméticos – e usa joias que ela faz com madeiras e sementes. Ao chegar a Brasília, em 1995, para o primeiro mandato, alguém recomendou que procurasse um estilista e ela aceitou, mas desistiu quando ele lhe propôs uma coleção de terninhos. Preferiu manter o próprio estilo. Xales, saias longas e a silhueta fina emprestam-lhe elegância vagamente asiática. Contrariando a austeridade do cabelo preso e as roupas sóbrias, é alegre e ri com facilidade. Contada por ela, a infância no seringal adquire contornos mágicos. Aos 7 anos, já acompanhava os pais no roçado, mas, quando o calor apertava e as abelhas vinham incomodar, ela e as irmãs pulavam num igarapé e brincavam.

Possuía 14 bonecas de pano, feitas pela avó paterna. “Uma delas, Estefânia, era grande e bonita; outra, chamada Hilda, tinha temperamento forte e mandava em todas”, revela. A avó mudou-se do Ceará para o Acre pouco antes de ela nascer, em fevereiro de 1958 – foi quem fez o parto. Aos 5 anos, quis morar na casa dessa avó, e a mãe, Augusta, tentou conquistá-la: cortou uma árvore e construiu com as próprias mãos uma cama, um colchão de paina de sumaúma e um travesseirinho. “Dormíamos todos em redes; cama era uma honraria”, explica. Mas foi inútil, e os pais a deixaram ir. Marina ouviu da avó os romances e os cordéis do Ceará; do tio Teco, que viveu dos 12 aos 30 anos com os índios do alto do rio Madeira, mitos da floresta; e do tio Mané, que sabia ler, notícias velhas da revista Manchete, que chegava com dois ou três anos de atraso.

 

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Guariba Vermelho – Imagem: br.viarural.com

 

A DIFÍCIL LIÇÃO DA MORTE

Aos 14 anos, Marina perdeu a mãe. Houve um surto de meningite no Acre, e Elizete, uma das meninas, sobreviveu à doença, mas ficou surda. Ao sentir uma forte dor de cabeça, Augusta foi levada a um hospital público de Rio Branco, onde deu entrada como indigente. Submetida ao único exame disponível, a punção do líquor, ficou inconsciente e morreu no dia seguinte. “Desde que entrou no hospital, não a vimos mais”, relata Marina. Foi enterrada lá mesmo, sem a presença do marido e dos filhos. Recomendaram que voltassem para o seringal e queimassem a casa e toda a roupa da família. “E fizemos isso”, diz, embargada. Um mês depois, o hospital informou que não tinha sido meningite, e sim aneurisma, que a punção ajudara a estourar.

Augusta tinha 36 anos. Casara-se aos 16 e dera à luz 11 filhos, dos quais oito sobreviveram. “Ela foi minha fortaleza”, reverencia. Dois anos mais tarde, Marina deixou o seringal para viver com os tios em Rio Branco. Naquele mundo de casas grudadas da periferia, fez descobertas acabrunhantes. “Eu, que descendo de negros e portugueses pelos dois lados da família, não sabia que existia preconceito contra negros nem contra mulheres. Minha mãe, que era branca, achava linda a cor negra do meu pai e, diferentemente do seu grupo de origem, em que os homens mandavam e as mulheres obedeciam, nada se fazia na família que não fosse combinado com ela.”

 

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Garça Amazônica – Imagem: br.viarural.com

 

CHICO MENDES, O AMIGO

Enquanto estudava, Marina empregou-se como doméstica na casa de uma família de professores. “Hoje avalio quanto dona Teresinha foi generosa, porque eu não sabia fazer nada”, recrimina-se. Na casa, aprendeu a fazer, além de bife e arroz, raiz quadrada. O jornalista Altino Machado, amigo de Marina, caminhava com ela por Rio Branco, há anos, quando, de repente, ela atravessou a rua em direção a uma mulher bem-vestida. Era a ex-patroa. “Foi um alarido, um abraço, uma conversa que não acabava mais”, lembra. Marina quis ser freira e, sobretudo, frequentar as boas escolas que as religiosas mantinham. Fazia o pré-noviciado e morava no convento quando um pequeno cartaz na parede da igreja chamou sua atenção: Curso de liderança sindical rural. Palestrantes: Clodovis Boff e Chico Mendes”. As freiras conservadoras chamavam de subversivos e comunistas aqueles que se opunham à invasão das terras dos seringueiros e dos índios. “Eu queria saber por que elas falavam mal justamente das pessoas que defendiam a minha gente”, conta. Depois da palestra, quando pediram que alguém fizesse um resumo do encontro, ela não apenas se ofereceu como falou em forma de cordel. O líder dos seringueiros ficou muito amigo da garota de cabelos encaracolados, que apelidou de “Nega Veia”. Ela comunicou às freiras que não iria mais para o Rio de Janeiro fazer o noviciado e iniciou seu caminho na política.

Participava de empates, atos de resistência em que mulheres e crianças colocavam-se diante das árvores e impediam que fossem abatidas por fazendeiros e invasores. O empate da fazenda Bordon, em 1984, teve enorme repercussão nacional. Marina trabalhou com Chico Mendes na implantação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT no Acre nos anos 1980. Graças às ações que realizaram, o ambientalismo, que era ironizado como uma ideia supérflua, importada dos países ricos, evoluiu para a abordagem socioambiental, que olha a preservação em conjunto com as necessidades do homem. No gabinete do Senado, ao recordar a última vez que viu Chico Mendes, em dezembro de 1988, ela precisa de alguns segundos para se recompor. Hospedara-se na casa do amigo ambientalista em Xapuri, e ele a acompanhou até a rodoviária. No caminho, desabafou: Vão me pegar, não tem mais jeito”. Marina teve medo e tentou desconversar. Estava no interior de São Paulo em tratamento de saúde quando soube do assassinato do líder, uma semana depois do derradeiro encontro no Acre. Demorou a conseguir comprar uma passagem de avião e só chegou a tempo da missa de sétimo dia.

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Floresta Amazônica – Imagem: br.viarural.com

 JANTAR NA CASA BRANCA

Uma das pessoas que conheceu naquele período traumático foi o ex-vice-presidente americano Al Gore, outro grande defensor do meio ambiente. “Enquanto a maioria de nossos políticos dizia: ‘Bem-feito, agora eles aprendem’, Al Gore estava do nosso lado.” Ele a recebeu diversas vezes nos Estados Unidos, uma delas com um jantar na Casa Branca, quando Marina ganhou o prêmio Goldmann, conferido a ambientalistas, em 1996. Enquanto pensava em trocar o PT pelo Partido Verde, vieram à tona muitas lembranças, não só de lutas políticas mas também de gestos de afeto e pequenas e grandes descobertas dos últimos 30 anos.

Sua vida se mistura à dos antigos parceiros. Quando foi receber o primeiro salário de professora, percebeu, na fila do banco, que jamais tinha preenchido um cheque. Seu amigo e colega de faculdade Binho Marques, hoje governador do Acre, notou sua hesitação. Discretamente, levou-a até uma ponta do balcão e a ajudou. Para tomar posse em 1989, como vereadora (sua primeira vitória eleitoral depois de uma derrota em 1986), pediu à irmã de Binho, Mirtes, um vestido emprestado. As roupas que costurava lhe pareceram “esgarçadas”.

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Campos Amazônicos – Imagem: br.viarural.com

 2 CASAMENTOS, 4 FILHOS

Quando a relação com Raimundo Souza, pai de Shalon e Danilo, chegou ao fim, Marina era professora e dava aulas em três turnos, mas nada de importante faltou à família. Shalon, 28 anos, psicóloga clínica com pós-graduação em teoria psicanalítica, teve bolsa de estudos num dos melhores colégios porque a mãe era professora. E nunca sofreu por ter menos do que outros alunos. “Uma vez, ao ouvir um colega falar de um banho de chuveiro, perguntamos a nossa mãe o que era isso”, recorda. “Nosso banho era com lata d’água na cabeça, fazendo a maior festa!” Marina improvisou: fez vários furinhos numa lata e colocou-a sob um pequeno reservatório de água. “É uma das lembranças mais emocionantes que tenho da minha infância”, diz Shalon.

Sua irmã Moara, 19 anos, estudante de direito, foi gestada durante a campanha presidencial de 1989, embate no qual Fernando Collor de Mello derrotou Lula. O nome da garota, liberdade em tupi-guarani, foi escolhido em homenagem ao operário que disputou o segundo turno na histórica eleição direta, a primeira que o Brasil realizava depois da ditadura militar. Praticamente nascida na política, Moara nunca se ressentiu por dividir o tempo da mãe com a carreira. “Lembro dela cantando pra mim antes de dormir, músicas que amo até hoje”, diz. Aos 27 anos, Danilo, publicitário, programador de interface, que trabalha na capital federal, evita falar da mãe famosa e aparecer em público. Mayara, 17 anos, cursa o secundário num internato adventista de Maringá, no Paraná.

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Anta – Imagem: br.viarural.com

RELIGIÃO E ABORTO

Maria Osmarina Silva casou-se pela segunda vez com um companheiro de militância política, o técnico agrícola Fábio Vaz de Lima, pai de Moara e de Mayara. Ele hoje trabalha no governo do Acre. É um parceiro discreto e flexível o bastante para acolher em casa a ex-sogra da mulher, mãe de Raimundo, que vive com eles há três anos. “Ela ajudou a criar meus filhos e, assim como a mãe do Fábio, foi uma das minhas mães substitutas”, situa a senadora verde. Foi Neide, a segunda sogra, quem introduziu na família a fé evangélica. Moara e Mayara se converteram primeiro e atraíram a mãe. “Eu vivia um momento de crise e estava afastada da religião; elas me reaproximaram”, relembra Marina. A crença da parlamentar tem sido motivo de críticas e desconfianças. Uma declaração dela sobre o direito de as escolas confessionais ensinarem criacionismo causou mal-estar.

Marina explicou publicamente sua posição: “A Lei de Diretrizes e Bases garante esse direito às escolas religiosas desde que não omitam o evolucionismo; o fato de eu ter fé não me opõe à ciência, não me torna obscurantista”. Tampouco aceita ser identificada com a posição ultraconservadora da bancada evangélica no Congresso. “Eu não sou da bancada evangélica. Fui eleita para defender os interesses de todos os cidadãos e não os de um grupo religioso”, explica. “Conheço a importância do estado laico.” Em relação ao aborto, entretanto, sua posição é tão cautelosa quanto a dos políticos tradicionais: “Não posso simplificar dizendo que sou contra ou a favor”, esquivou-se no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em setembro. “Não se trata de satanizar a mulher que busca alternativa para seu desamparo, mas seria reducionismo achar que aborto é um ato sem consequência.” Ela advoga um plebiscito.

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Campos – Imagem: br.viarural.com

 CAMPEÃ DE PRÊMIOS

Marina Silva dispõe de cada vez menos tempo para si. Quase não é vista em teatros ou shows de música, que frequentava quando se mudou para Brasília, em 1995. Conseguiu concluir uma pós-graduação em psicopedagogia quando era ministra e até hoje lê diversos livros ao mesmo tempo. Nas últimas semanas, dividia-se entre A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, e O Show do Eu, de Paula Sibila, sobre o impacto dos novos meios de comunicação na intimidade dos usuários. De vez em quando, escreve poemas – embora frise que são “poemas”, assim, entre aspas. Cerca de 15 mil pessoas procuram o gabinete da parlamentar acriana a cada ano, entre ambientalistas, índios, acadêmicos e pessoas em busca de uma internação ou de uma passagem de ônibus.

Ela também recebe convites – quase 3 mil por ano. E prêmios. Em 2007, o Champions of the World, conferido pela ONU; em 2008, a medalha Duque de Edimburgo, pela defesa da Amazônia brasileira, entregue pelo príncipe Philip (marido da rainha da Inglaterra), no palácio de Saint James, em Londres; em 2009, o prêmio Sofia, da Fundação Sofia, de Oslo. Ainda assim, no segundo mandato de senadora, garante que nunca se sentiu poderosa: “Seria preciso que eu fosse muito alienada.Vivemos no limiar do desamparo, necessitamos do outro para tudo que quisermos fazer”, acredita ela. É o poder diluído que fortalece e transforma – exercido desse modo, ele é como a água: não oferece resistência, mas tem um incrível poder transformador.” Água e poder são temas familiares para esta mulher.

ATENÇÃO:
Esta reportagem foi transcrita a partir do site:
“planetasustentavel.abril.com.br”.
A fonte indicada foi a Revista Claudia – 12/2009.
Caso os autores desejem a retirada deste espaço, favor contactarem o administrador através do e-mail “jferreira3009@gmail.com”.

Fontes:
planetasustentavel.abril.com.br
br.viarural.com

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Tomé Ferreira

Graduando em TECNOLOGIA EM MULTIMÍDIA DIGITAL pela UNISUL Iniciei minha carreira como “Desenhista” de prancheta. Arte-finalizava tudo manualmente também fazendo trabalhos esporádicos de Jornalismo Social. Fundei o Portal Duniverso em 2009 iniciando de vez minha saga pelo jornalismo o qual me apaixonei. Vida inteligente na WEB.

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