QUANDO OS FATOS NÃO CORRESPONDEM AOS NOMES
out06

QUANDO OS FATOS NÃO CORRESPONDEM AOS NOMES

 QUANDO OS FATOS NÃO CORRESPONDEM AOS NOMES Por Antônio de Oliveira Os pais costumam ter um trabalho danado para escolher o nome do bebê. Não é sem razão que, depois de todo esse esforço, ninguém queira ser tratado, anonimamente, como “o próximo” ou como o cliente do guichê 5 ou como portador da senha 24 ou como fulano, sicrana… Ser tratado pelo nome é prova de individualidade, sinal de consideração e identificação. “Meu nome é Enéas”, repetia, com orgulho, persistente candidato à presidência da República. Toda pessoa tem um nome ou um apelido de que gosta. Antropônimos e topônimos nem sempre correspondem à realidade. Ironia da sorte. Ou da falta de sorte. Uma jovem chamada Celeste tinha pavor de viajar pelos céus, de avião. Belo Horizonte virou Triste Horizonte num poema de Carlos Drummond de Andrade. Um advogado por sobrenome “de Deus” foi condenado à pena de reclusão. Uma menina de nove anos morre ao ser levada pela enxurrada no Conjunto Felicidade. Morte de adolescente deixa apreensivos os moradores do Jardim Felicidade. Em Lagoa Santa, o bairro Vila Rica teve casas demolidas por um vendaval. Um assaltante de 25 anos é o segundo membro de uma família linchado no Bairro da Paz. Moradores da Vila Beija-Flor tiveram de limpar a sujeira e reparar os estragos provocados pelo temporal. Nomes como Celeste, Felicidade, Lagoa Santa, Vila Rica, Belo Horizonte, Bairro da Paz, Beija-Flor ou Cidade de Deus refletem desejo de harmonia. Entretanto, nomes assim acabam por contrastar com tragédias e violência. É que nem sempre a linguagem ideal reflete a realidade, à semelhança de boas leis, piedosos sermões, lições de moral. Vale a pena lutar um pouco mais pela coerência entre pregação e ação, discurso e ética, razão e sensibilidade. Eldorado dos sonhos e realidade do dia a dia. Síndrome da pressa versus gentileza urbana no trânsito, paz e amor. Lembra padre Antônio Vieira que cada um sonha como vive. Mas cada um sonha também como gostaria de viver… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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QUIMERAS MIL
set28

QUIMERAS MIL

 QUIMERAS MIL Por Antônio de Oliveira O ser humano é uma quimera? Que novidade, que monstro, que caos, que objeto de contradição, que prodígio! Medida de todas as coisas, cloaca de incerteza e do erro, glória e miséria! Quem decifrará esse enigma, esse paradoxo ambulante? Esse questionamento vem a propósito da atual crise brasileira. Quem mediará tantas radicalizações, tantas desculpas esfarrapadas em meio a tanta roubalheira? O Brasil se transformou num acervo de incertezas. Quem botará ordem e progresso na casa? Nosso narcisismo não vale coisa alguma. Jamais seremos como Deus. Ai dos corruptos que causam a dor dos menos favorecidos! Devemos, pois, amadurecer no espírito. “Il faut cultiver notre jardin”: É preciso cultivar nosso jardim, afirma Voltaire. Tendo cuidado com o joio e com o agrotóxico. O bem que eu quero eu não faço. O mal que não quero eu faço, confessa S. Paulo. Reincidente no erro, faço e faço e faço, refaço. Nesse aprendizado, tenho que ler, reler, tresler, até aprender. Difícil interromper um vício, fazer por emagrecer. O jagunço Riobaldo admite que “não queria o que de certo queria”. Em acessos de medo ou de ira o corpo esfria, o sangue ferve nas veias. Emagrece de tristeza e rejuvenesce de júbilo. O rosto fica corado de vergonha. Problemas imaginários nós os tornamos mais reais que a realidade. Ânsia antes de uma prova. Estresse, depressão, diminuição de função fisiológica, desânimo, sensação de cansaço, abatimento visível, conversão somática, desesperança. Segundo a lenda, basilisco era um réptil fantástico, de oito pernas, segundo alguns em forma de serpente, capaz de matar pelo bafo, pelo contato ou apenas pela vista e, segundo outros, em forma de serpente com um só olho na fronte. Olhar venenoso, a única maneira de eliminá-lo seria colocar um espelho à frente dele que, ao refletir o seu olhar, acabava por matar esse ser fabuloso. Apesar de Narciso, é “feio o que não é espelho“, e apesar do espelho, viver é gratificante. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia.com...

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MÃOS SÃO MUITAS
set20

MÃOS SÃO MUITAS

 MÃOS SÃO MUITAS Por Antônio de Oliveira Os dedos da mão não são iguais. Mas não apenas os dedos. As mãos também não são iguais. Do grego, oneômano ou oneomaníaco, comprador compulsivo, mão-furada, mão-aberta, mãos-rotas ou manirroto, mão-frouxa, consumista. Mão-fechada, avarento, mão em garra, escorpião no bolso. Mãos-atadas, pessoa acanhada, indecisa, sem expediente. Mãozudo, que tem mãos grandes. O calculista se revela na mão calma, tranquila. Do desesperado, dele as mãos tremem. Nas mãos do corrupto se pode observar o que ele tenta ocultar. Um político brasileiro ficou conhecido como “Mão Santa” em razão de suas atividades assistenciais na área médica. Mão-leve, na gíria, significa gatuno, ladrão. Mão-boba é o gesto de quem procura, como quem não quer nada, tocar com a mão o corpo de outra pessoa com intenção libidinosa ou de furto. Entoa o salmista: Quem pode subir ao monte do Senhor? Quem pode ficar de pé no seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas… Moisés, enquanto tinha as mãos levantadas, Israel vencia, mas logo que as abaixava, Amalec triunfava. Como se fatigassem os braços a Moisés, puseram-lhe uma pedra por baixo e ele assentou-se nela enquanto lhe sustentavam as mãos, Aarão, de um lado, e Hur, do outro. Suas mãos puderam assim manter-se levantadas até o pôr do sol, e Josué derrotou os amalecitas. A vara nas mãos de Moisés abriu passagem pelo Mar Vermelho. Com um estilingue nas mãos, Davi venceu Golias. Quanto às mãos postas para orar, consta que o vencido ia ao encontro do conquistador romano, ajoelhava-se diante dele e lhe oferecia as mãos, unidas, para serem acorrentadas. Com essa atitude, sujeitava-se a ser escravo, mas pelo menos se lhe poupava a vida. Pode ser que, a partir daí, o costume se tenha generalizado na Era Cristã, à hora das súplicas religiosas. Mãos ao alto, por sua vez, significa rendição, seja nos filmes de faroeste seja em batidas policiais seja em assaltos. Despeço-me com um caloroso aperto de mãos.   O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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EXALTAÇÃO AOS PÉS
set11

EXALTAÇÃO AOS PÉS

 EXALTAÇÃO AOS PÉS Por Antônio de Oliveira O profeta Isaías exalta os pés do caminheiro que anuncia as boas novas, que a todos comunica a paz, que mostra o lado bom. São Paulo repete essa mesma fala aos romanos. A mídia, no entanto, adora notícias ruins: “Good news is no news”, quando não “fake news”: notícia falsa, fofocas. Cuida dos pés o podólogo, profissional de saúde habilitado para o tratamento dos pés. Nada a ver com o podófilo, que tem fixação erótica pelos pés. Letrinhas que fazem a diferença. Não trocar os pés pelas mãos. Há respostas que não param em pé. Pedicuro é aquele que se dedica aos cuidados ou embelezamento dos pés. O médico ortopedista e o fisioterapeuta também cuidam dos pés. Superstição ou não, manda a sabedoria popular que a pessoa se levante com o pé direito. Para os romanos, o pé esquerdo era “sinistro” e simbolizava o mal. Não meter os pés pelas mãos. Com os pés se anda, caminha e dança. “Pero no hay camino; se hace camino al andar.” Um dia a pessoa estará, irremediavelmente, e ao pé da letra, com os pés na cova. O evangelista Lucas repete, só ele, 88 vezes o verbo caminhar, dentre as 150 vezes, ao todo, no Novo Testamento. Os pés de Jesus caminharam sobre a terra e sobre as águas. Pés descalços deixam sua marca na areia da praia, logo tragada pelas ondas como os castelos de areia. Os saltos se iniciam com os pés firmes no chão. Salto alto é “fleur d’élégance”. Manter a cabeça entre as estrelas, mas sem tirar os pés do chão. Outras vezes é preciso bater com os pés no chão, pois à frente se abre a estrada para o caminheiro. Dedos dos pés se aquecem no inverno dentro das meias de lã. Os pés sustentam nosso corpo. Cômodo de pé-direito, alto ou duplo. “É ela menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar.” Cada um sabe onde lhe aperta o sapato. Ágeis são os pés dos corredores. Descalços e calejados os pés dos capinadores de roça. Cansados os pés dos idosos. Os pés de Elisa, de dois anos, são uma coisa fofa. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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ENGOLIR SAPOS
set11

ENGOLIR SAPOS

 ENGOLIR SAPOS Por Antônio de Oliveira A expressão surgiu por analogia com uma das dez pragas do Egito, quando saíram das águas inúmeras rãs, que penetraram nas casas e foram encontradas na cama e na comida do Faraó. Na verdade, admitem-se outras explicações para esta maneira de traduzir “suportar situações desagradáveis sem qualquer manifestação”. Trata-se, pois, de situações constrangedoras. Há que, nessas circunstâncias, pagar mico por uma fala desastrosa. Autoridades e famosos costumam ser flagrados pagando mico. Melhor não dar muita explicação. Um cara apresentou um soneto para Bocage apontar erros. Como os erros eram tantos, o poeta português preferiu não assinalar com cruz nenhuma, entendendo que a emenda ficaria pior do que o soneto. Por sua vez, a expressão “pagar o mico” parece ter surgido do baralho infantil Jogo do Mico. Aí as cartas exibem figuras de animais e o jogador tem que formar pares com o macho e a fêmea de cada espécie. Entanto, no baralho, o mico não tem par. Quem termina com a carta na mão perde, vale dizer, paga o mico. Aquele ou aquela que deseja se justificar, e por vezes lhe assistem razões, quase sempre não logra êxito. Isso apesar de o contexto próximo e remoto poder minimizar o alcance injurioso ou inapropriado das palavras. Mesmo assim, o que está feito não está por fazer, o que está dito está dito, e prevalece o que está escrito ou gravado. Alguém se queima com o amigo, com o cônjuge, com os filhos, dá-se por ofendido, fica queimado, melindra-se, zanga-se, independentemente, nesses casos, de saber em que circunstâncias o fato ocorreu. Outras vezes chega-se a pensar que houve o rompimento de um pacto, quando na verdade o rompimento foi devido a um incidente de percurso. Escorregando, pisando ou falando em falso: aquele pode provocar uma queda física; esse, uma queda conceitual, linguística ou até moral. Mas não há mal que sempre dure nem mal que nunca se acabe. Admite Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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“BOOKS FOR A CHANGE”
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“BOOKS FOR A CHANGE”

 “BOOKS FOR A CHANGE” Por Antônio de Oliveira Beatriz, nossa neta, mora nos Estados Unidos. Há poucos anos ela veio ao Brasil e, em Campinas, na companhia da avó materna foi a uma creche levando presentes de aniversário que o irmãozinho havia ganhado. Acostumada em San Diego a devorar livros, percebeu que a creche não dispunha de livros infantis para elas folhearem e ouvirem histórias lidas ou contadas pelas professoras. Daí surgiu a ideia de se criar uma organização não governamental, www.booksforachange.org, com o fim de doar livros a escolas, creches e clínicas infantis carentes. “Livros para uma transformação” se destina, então, a proporcionar a crianças carentes entretenimento e gosto pela leitura. Projeto genial, fantástico, uma maneira correta de ajudar crianças nessa idade. Através dessa ONG, que vive de doações, Bia e seus colaboradores adquirem livros e repassam uma média de 40 livros infantis, e uma estante baixinha, própria para os baixinhos, em cada instituição. Vale a pena conhecer esse projeto, descrito em detalhes na web. Quem, representando a instituição, estiver interessado em receber essa doação, que não tem absolutamente caráter eleitoreiro nem se caracteriza como um “pacote de bondade”, consulte o site e faça contato. É um trabalho sério, promocional, e de grande alcance, que merece ser acolhido, abraçado e incentivado. Estamos orgulhosos de nossa neta, felizes com a sua iniciativa e por levar à prática, por meio de providências concretas, um projeto de amplitude internacional. A prefeitura de Sertãozinho, no estado de S. Paulo, por exemplo, acaba de firmar parceria com Beatriz, nome que significa aquela que faz os outros felizes. Junte-se a nós! As boas causas visando ao bem merecem ser apoiadas. Esse é um trabalho extraordinário: o livro é alimento da mente. Com gravuras então… A criançada adora! O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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