Imaginarium
jan24

Imaginarium

 Imaginarium Por Antônio de Oliveira Virgílio louva o homem do campo para quem são destituídas de valor as questões públicas e os reinos destinados a perecer. No original: “non res Romanae perituraque regna”. Hoje, uma imagem insólita, objeto de nostalgia. Modernizada, a fazenda se descaracterizou. Gado de raça, de cocheira; eletrificação, inseminação artificial, manejo de pastagens, ordenha mecânica, camionetas, tratores, registros computadorizados. Tudo, enfim, que traz conforto, racionaliza o trabalho, aumenta a produção, mas desafia, enfrenta, desfigura o sertão. Para João Guimarães Rosa, “Sertão é dentro da gente”, símbolo de troca de senha, apenas. Sertão dentro de mim, sem fim, até o fim, até os confins. O sertão é do tamanho do meu mundo. Sim, amparado por Carlos Drummond de Andrade, posso sempre ter, como Um chamado João: pastos, buritis plantados em apartamento, no peito. Na década dos 40 esse panorama de interior mineiro era diferente. Fazenda antiga, casarão; terra batida, nua, dura e seca pela força dos cascos dos animais, grandes currais divididos pelos pastos. Pastagens extensas, gado solto: nelore, guzerá, caracu, mestiço. À sombra de árvores esparsas, reses ruminando; touros selvagens, em liberdade, alheios à própria imponência, descansados. Dos janelões da casa grande, fincada num pé de serra, uma paisagem descontraída: “Enquanto pasta alegre o manso gado / Minha bela Marília…” Continua o inconfidente Tomás Antônio Gonzaga: ““Atende, como aquela vaca preta / O novilhinho seu dos mais separa / E o lambe, enquanto chupa a lisa teta”. Cai o pano. Rangido, batido da porteira. Taramela. Cerra-se a memória. O moinho não é mais moinho. O sussurro da água se foi. Ou a vida é um moinho, dentro da gente? Mói, mói, mói, até parar. Tritura. Só não mói minha fé. Trocando o sertão por moinho, levo um moinho dentro de mim. Esta vida não será mesmo um moinho? Dom Quixote a combater moinhos de vento como se fossem gigantes de braços enormes. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

Read More
Me Engana Qu’eu Gosto…
jan16

Me Engana Qu’eu Gosto…

 Me Engana Qu’eu Gosto… QU’EU GOSTO… Por Antônio de Oliveira Denúncias e respostas: Acusado de assalto, assessor parlamentar é preso. Nunca trabalhou com o deputado. Rodovia esburacada. Providências estão sendo tomadas. Falta remédio no SUS. Em breve será publicado o edital de licitação. Corrupção: A prestação de contas obedeceu à legislação vigente e foi devidamente aprovada pelos órgãos competentes. Fiquei surpreso. Nem conheço o delator, provavelmente um maluco, um sacripanta, um… e não tenho nada com isso. Acusações infundadas, levianas e sem provas evidentemente não merecem crédito. Não passam de ilações. Jogo baixo. Tudo mentira. Tudo não passa de uma farsa bem arquitetada. Intriga da oposição. Faltam provas. Sempre tive vida ilibada. Perseguição política. Conduta irrepreensível. Inflação: a culpa é da herança maldita, das elites, dos anos de chumbo, da classe média, do sistema, da estiagem prolongada, da crise internacional. Daí também: crise na saúde, na educação, nos transportes, nos presídios… Vamos diminuir os gastos públicos. Trabalhamos para o bem do Brasil e em benefício de todos os brasileiros. Vindo de Brasília: Aqui, neste espaço, deste planalto central, a política é a busca do melhor para o País. Para os descamisados, pobres e excluídos, trabalhadores, brasileiras e brasileiros, companheiras e companheiros, o partido de todos nós é o Brasil. O Brasil da Copa das Copas e das Olimpíadas. A partir do dia da faxina nacional contra a dengue, todos os órgãos públicos federais terão seus prédios e adjacências livres de qualquer água parada. Vocês, da televisão, podem voltar aqui e verão que tudo estará limpo… Para o Presidente, rebelião que matou 56 presos em Manaus foi um ‘acidente’. Afirma um secretário do governo federal sobre chacinas de presos: “Tinha que matar mais.” Governador diz que ‘não tinha nenhum santo’ entre os presos mortos. Solução insólita: criar mais um ministério… Palavras e atos identificam seus autores. Na hora… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

Read More
Verberando Os Costumes
jan12

Verberando Os Costumes

 Verberando Os Costumes Por Antônio de Oliveira Verberar, reprovar, fustigar, criticar, desancar. Indispensável é lembrar a frase latina: “Castigat ridendo mores”. Verberar o presidente, os ministros, os deputados, enfim, os representantes da nação. Pouco recurso resta ao brasileiro para fazer isso. Mas ele o faz, com criatividade e maestria, provocando o riso. O brasileiro, pois não tem outro jeito, cultiva a arte de sorrir cada vez que o Brasil dos Sanguessugas diz não. Charges e dizeres espirituosos, trocadilhos e piadas passam a circular pelas redes sociais. Em vão o brasileiro verbera sem piedade os erros e a pouca-vergonha de nossos governantes, mesmo que não haja retorno gratificante. Marchinhas de carnaval esculhambam com a esculhambação do governo, apesar de nada atingir a quem está blindado pelo poder. “O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso”, reconhece-o a escritora alemã, de origem judaica, Hanna Arendt. Estamos longe de poder dizer como no fecho da canção: “E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho. Como eu sou feliz, eu quero ver feliz. Quem andar comigo, vem Lá – lá – lá- lá – lá…” Nossos políticos não nos deixam brincar de viver, tamanha a sua ambição, tamanha a sua desfaçatez, desfaçatez e ambição quase generalizadas. Historicamente, com seus altos e baixos, picos de euforia e abatimentos de descrença, tem sido sempre assim, independentemente do partido dominante. As mordomias não cessam. Cortar na própria carne significa cortar na carne do cidadão indefeso, na morada desmoronada do pobre. Aqui não é meu lugar. Como não tenho o dom do sorriso aberto e do gargalhar a bandeiras despregadas, abraço a bandeira do Brasil e, em sonhos, na companhia de Manuel Bandeira, “vou-me embora pra Pasárgada: aqui eu não sou feliz, lá a existência é uma aventura”. Levantando outra bandeira, lá desfraldarei a bandeira do Brasil para ser agitada pelos bons ventos. Ventos me levem… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

Read More
O Mundo Dos Mundos…
jan06

O Mundo Dos Mundos…

 O Mundo Dos Mundos… Por Antônio de Oliveira “Mundo mundo vasto mundo…” Rima com Raimundo, Edmundo, Segismundo. Em latim, “mundus” significa puro, limpo; antônimo de “immundus”, sujo. “Beati mundo corde”, bem-aventurados os de coração puro. Dada a sujeira, de natureza física e moral, talvez vivamos num mundo imundo. Mundo cão, mundo das drogas, mundo dos aflitos, mundo dos marginais, mundo dos marginalizados; mundo da propina, mundo da pompa, mundo do sexo, mundo da mentira, o mundo político; mundo subterrâneo, mundo vale de lágrimas; mundo mediterrâneo; mundo cristão; os prazeres do mundo; mundo da fama, do poder. “O meu reino não é deste mundo. Se fosse deste mundo…” mas não os tires do mundo… “Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo”. Salvador do mundo. Mundo material, mundo de Deus, mundo interior, mundo do pensamento, o mundo bíblico; mundo das palavras, mundo inteligível de Platão, mundo platônico; mundo dos animais, mundo dos espertos. O lar é o seu mundo. Ele vive no mundo da lua. Este hotel, esta loja é um mundo. O mundo dos negócios, mundo financeiro, mundo jurídico, o mundo dos esportes, um mundo de coisas; um mundo de coisas mundas e imundas. Um mundo, um mundão, um mundaréu de gente. Mundo dos pichadores. Mundo da prostituição. Mundo aberto sem porteira. Este mundo está perdido. Não se endireita o mundo, ninguém consegue mudar o mundo; mundo às avessas. Cada qual vive no seu mundo. Todo o mundo sabe disso e todo mundo vive assim. O outro mundo é o mundo do além. A palavra mundo tem um mundo de significados. Vive no seu mundinho. Prometer mundos e fundos. Terceiro mundo. Vir ao mundo. Velho mundo. Príncipe deste mundo. O mundo inteiro; o mundo das crianças, o mundo do crime. Velho mundo, novo mundo, fim do mundo. Viver num mundinho, sair do mundinho para todo o mundo ver, ser do mundinho. Mundo besta! Mundo de tudo, mundo de todos, mundo de ninguém. Ser alguém no mundo transpondo um mundo de dificuldades. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

Read More
Pequenas Atitudes, Grandes Revoluções
jan06

Pequenas Atitudes, Grandes Revoluções

 Pequenas Atitudes, Grandes Revoluções Mais um ano que se foi. Mas esse não foi um ano qualquer. Dois mil e dezesseis vai ficar na história como o ano que não queria acabar. Os fatos mais comentados são os piores: guerras, fugas, corrupção, desemprego, trabalhadores sem salário, sem décimo terceiro, fome, desastres, mortes…. Como se não bastasse ter sido um ano bissexto, 2016 ainda teve um segundo a mais de duração. Os astrônomos justificaram que esse prolongamento indesejado foi para compensar a rotação da Terra, cada vez mais lenta. ­– Ah! Então por que não deixaram esse segundo a mais para o primeiro de janeiro? Tinham que prolongar esse ano terrível? Sexta-feira, dia trinta, último dia útil de 2016: fui para a academia para minha última aula do ano e, mais uma vez, fiquei aborrecida ao passar por montes de lixo acumulados nas calçadas. O caminhão da prefeitura os recolhe às 20 horas e o povo deveria colocá-lo na calçada, em sacos adequados e bem fechados, cerca de 30 minutos antes da coleta. Mas às 16 horas já se acumulam sacolas, sacolinhas e sacolões de lixo por toda parte. Algumas tão finas que se rompem espalhando sujeira e mal cheiro. Agora eu lhe pergunto: se esse segundo a mais fosse em janeiro, em que isso mudaria sua vida? Não fazemos contas tão pequenas em nosso dia-a-dia, não é? Talvez seja isso que deva ser mudado. Precisamos ver as pequenas coisas de nosso dia-a-dia. Precisamos ver que somos um indivíduo que compõe mais de duzentos milhões de brasileiros e 7,5 bilhões de seres humanos. O mundo não se resume no “EU”. Ele é plural e é assim que devemos medir nossas atitudes. Se você joga lixo na rua, milhões também vão jogar, se desperdiça energia, milhões também vão desperdiçar. Precisamos cultivar os bons hábitos, especialmente os menores, aqueles dos quais não fazemos conta e que fazem toda a diferença. Colocar o lixo na rua, bem acondicionado e no horário adequado vai manter nossa cidade limpa, livre de insetos, ratos e doenças por eles veiculados. Assim como um ato ruim desencadeia uma cascata de maus acontecimentos, o bom hábito, por menor que seja, também gera um efeito dominó, só que para o bem. São as pequenas atitudes de cada um que desencadeiam grandes revoluções. O povo brasileiro foi às ruas pelo “Diretas Já”, pelo “Fora Collor”, pelo “Fora Dilma”… Foram milhares que pressionaram o Congresso, mas o indivíduo anônimo naquela massa de gente, fez toda a diferença. Ele não foi só mais um, ele foi um deles. Pense nisso. Feliz 2017. Iriam Gomes Starling  –   iriamstar.com   –   Eiseditora.com.br Médica Cirurgiã...

Read More
Quando Sete É Igual A Nove
dez27

Quando Sete É Igual A Nove

 Quando Sete É Igual A Nove Por Antônio de Oliveira Janeiro é mês dedicado a Jano, rei do Lácio, patrono dos começos e dos fins. Saturno, que é representado com uma foice, fora expulso do céu pelo próprio filho, Júpiter. Escolheu, então, o Lácio para morar e Jano lhe proporcionou sociedade no seu império. Agradecido, o deus Saturno dotou Jano de enorme perspicácia em relação ao presente, fazendo-o bifronte, isto é, passou a ter sempre diante dos olhos o passado e o futuro. Por isso, Jano é representado como um jovem com duas ou até mais faces. Ostenta uma chave na mão direita, pois foi ele quem inventou as portas e, na esquerda, um báculo para indicar o domínio que exercia sobre caminhos e estradas, entradas (janeiro) e saídas. Numa Pompílio, segundo rei de Roma a. C., fez erguer, em Roma, no Foro Romano, o templo de Jano, que permanecia fechado quando a República vivia tempos de paz, o que somente aconteceu nove vezes em mil anos. “… del famoso Tempio di Giano, le cui porte si aprivano in tempo di guerra e si chiudevano in tempo di pace, ma di esso non resta la minima traccia”, como se lê no Guida d’Italia: Roma e dintorni). Numa também decidiu que, em vez de dez meses, o ano deveria ter doze meses. Introduziu, então, os meses de janeiro e fevereiro, no início do ano, razão pela qual setembro é o nono mês, outubro o décimo, novembro o décimo-primeiro, e dezembro o duodécimo. Desde o século XVI que o 1.º de janeiro foi adotado universalmente como o primeiro dia do ano. Fevereiro, em homenagem à deusa Februa, março, a Marte, abril à deusa Aprilis, maio à deusa Maia, filha do gigante Atlas, junho à deusa Juno, esposa de Júpiter, julho a Júlio César, agosto a Augusto. Os demais conservam as denominações primitivas e significam o 7.º (setembro), o 8.º (outubro), o 9.º (novembro) e o 10.º (dezembro) mês, reminiscência do calendário dos antigos romanos, de dez meses. Nascemos mergulhados nas águas da história: ponto de referência da humanidade. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia...

Read More