SÓ NO TEMPO DO ONÇA? QUE NADA! HOJE TAMBÉM…
dez20

SÓ NO TEMPO DO ONÇA? QUE NADA! HOJE TAMBÉM…

 SÓ NO TEMPO DO ONÇA? QUE NADA! HOJE TAMBÉM… Por Antônio de Oliveira Durante sete anos, entre 1725 e 1732, o Rio de Janeiro foi governado pelo capitão Luís Vahia Monteiro, homem autoritário, temperamental, considerado truculento, turrão, retrógrado, ranzinza. Seu apelido era Onça. “O senhor viu onça: boca de lado a lado, raivável, pelos filhos?” Frequentemente Onça se desentendia com religiosos e políticos e não deixava por menos. Tornou-se lendário, marcou época e até hoje quando alguém se refere a uma coisa acontecida há muito tempo, uma coisa antiga, retrógrada, fora de moda, usa a expressão: “É do tempo do Onça”. Puxa vida! Isto é do tempo do onça. O que se destaca, a propósito, é que Onça se considerava honestíssimo: “Nesta terra todo mundo rouba, só eu não roubo.” Não faz muito tempo, um político brasileiro conhecidíssimo afirmou, de certa forma personificando seus colegas, ases da política de conduta ilibada. “Não existe viva alma mais honesta do que eu nesse país”, admitindo uma ressalva: “Pode ter igual, mas eu duvido”. Lembre-se um antigo provérbio português: Elogio em boca própria é vitupério. Entre outros significados, a palavra vitupério quer dizer vileza, baixeza. Etimologicamente, vitupério, de vitium, vício, defeito, e parare, preparar, fazer, quer dizer atribuir vício a alguém, entendendo-se, no caso, que quem vitupera seria considerado virgem do bordel, como assim foi chamado também o Onça. A parábola do Fariseu e o Publicano é retratada num bonito afresco na Abadia de Ottobeuren, na Alemanha. Ambos, fariseu e publicano, orando no templo. Aquele, tendo ao seu lado um humilde publicano, arrota honestidade: Não sou como os demais homens, que são ladrões, injustos, adúlteros. Ou, como diria Guimarães Rosa pelo Grande Sertão afora, o fariseu não frequentava “um cafarnaúm, moxinife de más gentes, tudo na deslei da jagunçagem bargada”. Ontem como hoje, vivemos no tempo do onça. Os comportamentos são quase os mesmos de antanho. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: gederbarbosa.blogspot.com.br...

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A DITADURA DOS SEGUNDOS
dez03

A DITADURA DOS SEGUNDOS

 A DITADURA DOS SEGUNDOS Por Antônio de Oliveira Afixado na parede um relógio digital a marcar horas, minutos, segundos. A rapidez dos segundos no mostrador luminoso impressiona. Não mais que um clique. Leves sopros seguidos. Ininterruptamente. O tempo passa, o tempo voa. Eis que, paralelamente ao tempo cronológico, existe o tempo psicológico. “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos.” O tempo passa devagar quando vivemos momentos difíceis, de espera, de perdas. Passa rápido, fugaz, quando estamos descontraídos e alegres, quando a realidade, então patente, continua latente. “As coisas não estão no espaço; as coisas estão é no tempo”. Enquanto isso, aqui e agora, os segundos estão passando. O tempo, o tempo não para. Não para não. Não para. Mas, discordando de Cazuza, não se veja o futuro repetir o passado. Cada dia o sol nasce, e não se repete. Simplesmente reabastece o seu brilho, durante a noite, tendo a lua como vigilante suplente. Hum, mesmo assim pode acontecer tanta coisa da noite para o dia, de uma hora para outra. De fato, há situações em que o tempo não passa. O não fazer nada, por exemplo. Outras vezes, a ansiedade, sensação de receio e de apreensão, sem causa evidente, e a que se agregam fenômenos somáticos como taquicardia, sudorese, tremor nas mãos, dor de cabeça, secura na boca, desarranjo intestinal ou prisão de ventre, “coração bem batendo”. O tempo também não passa para o presidiário nem para o acamado. Quando, então, é o caso das horas infindas. Tempo e espaço são chamados por Kant de intuições: o espaço, forma de sensibilidade externa; o tempo, forma da sensibilidade interna pela qual percebemos os fatos conscientemente, uns depois dos outros, como sucessivos. Também percebemos, por correlações, uns fatos por causa de outros, quando a posteriori. Espaço e tempo constituem o binômio básico do universo de cada pessoa. Para além disso: “Mundo, mundo, vasto mundo… mais vasto é meu coração”. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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EXISTE UM JEITO DE DAR UM JEITO?
nov22

EXISTE UM JEITO DE DAR UM JEITO?

 EXISTE UM JEITO DE DAR UM JEITO? Por Antônio de Oliveira Existe. Basta, no caso dos parlamentares, querer “usar um projeto contra a corrupção como hospedeiro de uma anistia para salvar o pescoço de políticos que usaram caixa dois”. “Brasília é uma ilha, uma cidade que fabrica sua própria lei.” É excelência pra lá, excelência pra cá, reforma pra lá, reforma pra cá, dois pra cá dois pra lá, caixa dois, assim, ou assim – caixa 2, não importando se caixa de ressonância, ou não, dos anseios populares. Controlam com tacadas de mestre os recursos desviados da escrituração legal, com o objetivo de sonegá-los à tributação fiscal. Propina, vocábulo esvaziado de seu conteúdo, virou palavra de almoço e janta, de botequim e parlamento, de rádio e televisão. Os culpados se defendem da imputação de corrupção lançando mão de todos os meios, absurdos e inimagináveis, à mão, fora de mão, sem abrir mão: silêncio, negativa, mentira, transferência de culpa. Acusam a Justiça de extrapolar e extrapolam de suas competências, atribuições e obrigações. Mas não deixam de se atribuir imunidade parlamentar, foro privilegiado, impunidade, propinas e quejandos. Um congresso longe de ser um Congresso com um “C” maiúsculo. “Ad commodum suum quisquis callidus est.” Na defesa de seus interesses, cada qual é versado, esperto, astuto. Cada um é hábil no manejar seus interesses. Político corrupto acode onde mais lhe interessa: o bolso. Cada qual, sim, homem ou mulher, sabe como acomodar seu calo. Político hábil, então, “callidus temporum”, na expressão de Horácio. No popular, quem tá perdido caça caminho… D’Os Paralamas do Sucesso a música, aqui pinçada, Luís Inácio (300 Picaretas): “São trezentos picaretas com anel de doutor. Eles ficaram ofendidos com a afirmação que reflete na verdade o sentimento da nação. É lobby, é conchavo, é propina e jeton”. Essa canção, composta por Herbert Vianna, foi lançada em 1995. Não abono nem desabono seu conteúdo, mas “Luís Inácio avisou”… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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É COMIGO?…
nov13

É COMIGO?…

 É COMIGO?… Por Antônio de Oliveira Falando sério, o contribuinte é que é o patrão dos políticos, que nem sempre se mostram dignos representantes. Isso ocorre toda vez que a leviandade desmascara a apregoada capacidade e idoneidade com que apareceram cingidos em campanha eleitoral. São autoridades constituídas pelo povo, que deveria ser considerado de fato respeitável público, para o qual deveriam trabalhar com competência e honestidade. Mas parece que excelências andam perdendo a linha com a manivela e tudo. Ou, então, mostram-se tolerantes e compreensivos, como se nenhuma critica ou reclamação os atingisse, blindados pela imunidade parlamentar e pelo antidemocrático foro privilegiado. Ninguém que ocupe um cargo público é dono dele. Após as manifestações públicas do dia quatro de dezembro de 2016, um senador chamou os manifestantes de “mentecaptos alienados”. Ou então, de maneira alienada, isso sim, entendem que as manifestações são legítimas e, dentro da ordem, devem ser respeitadas. Manifestações desse tipo servem para oxigenar nossa jovem democracia. Maravilha. Mas para quem são os recados? Os destinatários fazem de conta que não é com eles. Mais urgente que uma reforma política é uma reforma de caráter, a partir do “avesso do avesso do avesso do avesso”. Marcelo Calero, ex-ministro da Cultura, estopim do caso Geddel em 2016, disse, no Facebook, que “não podemos mais tolerar a esculhambação que é a política do nosso país”. É bem aquela história: Era uma vez quatro políticos, Todo Mundo, Alguém, Qualquer Um e Ninguém. Havia um trabalho indispensável a ser feito em proveito do povo. Todo Mundo tinha certeza de que Alguém o faria. Qualquer Um poderia tê-lo feito, mas Ninguém o fez. Alguém se negou a fazer o trabalho porque era um trabalho de Todo Mundo. Todo Mundo achou que Um poderia fazê-lo, mas Ninguém imaginou que Todo Mundo deixasse de fazê-lo. No final, Todo Mundo culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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SONHOS COMPARTILHADOS
nov13

SONHOS COMPARTILHADOS

 SONHOS COMPARTILHADOS Por Antônio de Oliveira Quem realiza é porque sonha. Cada um, a seu modo e a modo do que pretende, se de fato pretende, faz o sonho preceder à realidade, aos fatos que correspondam às suas ideias, tanto para o bem como para o mal. Assim, o poeta é um sonhador. O idealista também o é, como o é o empreendedor. O aluno sonha com a formatura. Ter um filho é sonho de muitos casais. O sonho de ganhar na loteria leva muita gente a jogar sempre. Candidato a cargo eletivo costuma sonhar com o poder e suas benesses. O brasileiro não é exigente. Mas precisa cada vez mais dos outros… e de sonhar, a exemplo de grandes sonhadores, como Dom Bosco, Martin Luther King, Nelson Mandela, Raul Seixas, o profeta Isaías, Jacó e sua escada entre o céu e a terra, Elvis Presley, Joana d’Arc. Sonhos costumam ser individuais. Em geral, não se está contente com a realidade nacional: corrupção, violência, pobreza, saúde precária, rodovias abandonadas, tributação escorchante, impunidade das grandes para os grandes, mordomias oficializadas para marajás e maranis, problemas habitacionais, trânsito caótico, escola pública não universalizada, indígenas ameaçados, falta de estacionamento ou, em existindo, muito caro, e, se na rua, disputado a unha por flanelinhas, com a complacência dos cidadãos comuns e a cumplicidade de usuários e autoridades. Poluição, sujeira, pichação, muita pichação… Apregoam-se melhorias, porém monocraticamente. Não são sonhadas coletiva e compartilhadamente. Elegemos e reelegemos coronéis do mando, jogadores, líderes religiosos, gente que aparece mais na mídia. Os objetivos nacionais não são bem definidos, muito menos as metas. O último sonho coletivo dos brasileiros foi quando das diretas-já, faz tempo. Daí para cá… Nem a Copa foi um sonho compartilhado. Enquanto não sonharmos do tamanho do Brasil, coletiva e solidariamente, continuaremos sendo dominados por poderes autocratas, assentados no corporativismo e no troca-troca. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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FINADOS
nov01

FINADOS

 FINADOS Por Antônio de Oliveira Muitos comemoram o Dia de Finados fazendo uma visita ao cemitério. Sinal de que os que se foram ainda continuam presentes na nossa memória: eis o mistério da alma do mundo. Para Augusto Comte, os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos. De acordo com Ernesto Sabato, “a razão não serve para a existência”. Segundo esse argentino, por sinal doutor em Física, a alma humana, em sua profundidade, “no está para esas cosas”. Está para a sensibilidade. Por sua vez, em seu diário, em forma de cadernos, e na sua maneira de contar os dias, José Saramago comenta: “Assim é a vida: acontecem às vezes coisas maravilhosas ao nosso lado (que há de mais maravilhoso que o amor de uma criança por um adulto?) e não chegamos a aperceber-nos delas, porque pertencem, também elas, a outro mundo, o dos sentimentos mais profundos, a que a razão não sabe nem pode chegar”. Outro mundo!… Essa a imagem que me vem à mente no Dia de Finados. Como será o além? Tantas e inúmeras previsões e pré-visões. Mas, coerentemente com a proposta desta reflexão, prefiro meditar sobre o aquém, do lado de cá em direção al di là. “Al di là delle cose più belle / Al di là delle stelle”. Coisas mais belas, eis o recado da canção. Sinal de que al di là as coisas devem ser mais belas. Eis o epitáfio do túmulo de Frank Sinatra: “The best is yet to come”, o melhor ainda está por vir. Por ora, eu fico com a pureza da resposta das crianças, de Saramago e de Gonzaguinha: é a vida, é bonita, e é bonita. Finados. Na cidade dos mortos, uns se ajoelham em piedosa oração, outros murmuram ladainhas, ainda outros permanecem à distância fitando o horizonte de cruzes. Os finados nos dão conta de que Shakespeare tinha razão em admitir haver mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Entre o céu e a terra dos mortos. Entre o murmúrio e a prece. Entre o murmúrio e o silêncio. Ante a inelutável. Com o maior respeito. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: internet...

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