AMIZADE SEM FERROLHO
ago15

AMIZADE SEM FERROLHO

 AMIZADE SEM FERROLHO Por Antônio de Oliveira O homem previdente não constrói a sua casa sobre a areia. Cai a chuva, veem as enchentes, mas a casa não cai. Amigo, lembra a canção, é feito casa, casa do amigo, a quem, se você pedir um pão, não lhe dará um sonoro não. Casa construída sobre a rocha. Levantada aos poucos, com a paciência, persistência e sapiência de um joão-de-barro. Continua a canção: com alicerce resistente, casa fincada em jequitibá e vigas de jatobá, com muito tijolo e terra, reboco, taramelas firmes contra os ventos uivantes. Casa invejada por sabiás e rouxinóis, pintassilgos, canários, pardais… e pela cigarra imprevidente. Com o tempo, os cabelos brancos vão surgindo. Mas nem por isso o amigo foge da raia. Tenho um amigo assim, desde os tempos de escola primária, no interior de Minas. Seu nome é bíblico e significa justamente ligado, unido, vinculado a alguém. A distância física nunca nos isolou. Mesmo nos tempos de carta pelo correio. Sim, amigo que é amigo quer estar presente na nossa vida, sem alarde, sem dar muito palpite… Amigo que é amigo não puxa tapete. Mantém-se fiel. Muita água rola por debaixo da ponte; outras vezes a água transborda. Mesmo assim… Amigo é a pessoa que sabe tudo sobre você, e ainda assim gosta de você. Música e letra de Fernando Brant e Milton Nascimento, ”Canção da América” entende que amigo é mesmo coisa para se guardar dentro do coração, no lado esquerdo do peito, debaixo de sete chaves. Visto de outro ponto de vista, não seria debaixo de sete chaves. Importa mesmo é ouvir a voz que vem do amigo, pois seja o que for, venha o que vier, será sempre a voz do coração aberto, sem ferrolho nem ferrugem, luz à vista, que brilha para que possa ser vista alumiando também o caminho de outros, pois se contagia com as necessidades alheias. Contagiante para o bem. Amigo verdadeiro é aquele que leva você para o bom caminho. Pessoas não aparecem na nossa vida por acaso. Principalmente pessoas amigas… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagens: sxc.hu...

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MÃE ETERNA, PAI IMORTAL
ago08

MÃE ETERNA, PAI IMORTAL

 MÃE ETERNA, PAI IMORTAL Por Antônio de Oliveira A figura de pai é tão marcante que se diz pai de magistral ideia, pai dos pobres, pai dos enfermos, pai João, pai Tomás… Também tristemente se diz que o ódio é o pai de muitos crimes. Mas tudo isso são palavras. Mais vale sentir-se pai. Se, numa dessas entrevistas de lugares-comuns, clichês de mídia, alguém me perguntasse quando mais me senti pai, eu lembraria duas situações. Isabela, então com onze anos, escorregou no piso molhado e fraturou uma perna. Horas depois, olhei para a perna engessada e, sinceramente, preferi estar no lugar de minha filha. Por que justamente ela? Por que não eu? Naquela hora me senti pai. Maurício, ainda adolescente, insistia em sair de carro, uma noite, mesmo sem habilitação. Criado o impasse, botei a chave em cima da mesa, com o coração na mão, ante o desafio de ele apanhá-la ou não para sair a dirigir, concordando comigo ou de mim discordando. Um minuto de suspense. Ele abaixou os olhos, não tocou na chave do carro e, amuado, retirou-se para o quarto resmungando: – Pai, você é foda! Guardo com carinho esse apelativo foda como “ouro acrisolado no fogo”, na expressão do Livro do Apocalipse. De repente, uma expressão vulgar, um disfemismo, se transforma num eufemismo. Magia, feitiço do discurso: pai é foda… Dia dos Pais faz pensar no bônus e no ônus de ser pai. Pai, eu? O registro civil o atesta; a vida, mais que o registro… Pai, palavra forte. Paternidade, quintessência da criação. “Assunto decerto prestadio a declamações”, diria Machado de Assis, mas isso eu deixo para os declamadores. Fico apenas, e é o bastante, no dito de Goethe, em Fausto, famoso na pena de Freud: “Aquilo que herdaste de teu pai, conquista-o para fazê-lo teu”. Mia Couto resume meu pensamento: “A mãe é eterna, o pai é imortal”. Amor, amor verdadeiro, se sabe e se demonstra, mais se demonstra que se sabe. Constrói-se e se reconstrói sobre a rocha. Mas não é monolítico. Feliz Dia dos Pais!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu  ...

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UM MINUTO DE SILÊNCIO
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UM MINUTO DE SILÊNCIO

 UM MINUTO DE SILÊNCIO Por Antônio de Oliveira Silêncio d’alma. Silêncio interlocutor. Língua dos anjos. O silêncio tem vez, voz e asas para quem fala a sua linguagem e, por meio dela, conversa consigo mesmo. O silêncio eleva; enleva o espírito. Desgrudar-se do celular, ouvir o voo silencioso dos pássaros, cultivar a paz de santuário “nas quietudes nirvânicas mais doces”. O livro “A Afinação do Mundo” oferece o capítulo “Silêncio” e lembra que, fora do burburinho das cidades, o campo era acessível com seus serenos sussurros de sons naturais. Os dias eram tranquilos e os dias santos eram chamados dias santos de guarda. Hoje não passam de dias de divertimento, feriados agitados e tumultuados. Rodoviárias cheias desde a véspera, rodovias palco sinistro de lúgubres acidentes… Jornalista de Melbourne, na Austrália, morto em 1922, Edward George Honey foi a primeira pessoa a sugerir a solene cerimônia do Silêncio. Hoje, em muitos países e regiões se homenageia pessoa recém-falecida com um minuto de silêncio. Inicialmente, a ideia foi homenagear a memória daqueles que haviam sido mortos na guerra. “Entre oceanos de nada”, a sinfonia do silêncio, do espírito, da vida interior. O homem moderno foge do silêncio. Ele pensa que, evitando o silêncio, isso lhe nutre a fantasia de vida eterna aqui na terra. Talvez porque caminhe a passos largos para o derradeiro silêncio, a morte, o ser humano sofre de claustrofobia. Apraz-lhe, de preferência, produzir sons trepidantes. O silêncio lhe fere os tímpanos e, por vezes, lhe abafa a voz da consciência. “Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie”, frase famosa do pensador francês Blaise Pascal, transcrita num verso eterno de Carlos Drummond de Andrade, no seu poema “Eterno”: O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora. Concluindo, em vez de Tenho Dito, Não Tenho Dito. Cesse o ruído da mente! Consta que, antes da invenção do ouvido humano, apenas os deuses ouviam sons. E a música era divina… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia...

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VOVÓ SANT’ANA
jul24

VOVÓ SANT’ANA

  VOVÓ SANT’ANA Por Antônio de Oliveira Em 26 de julho se comemora o Dia do Vovô e da Vovó. Consagrado a S. Joaquim e Sant’Ana, esposa de Joaquim, mãe de Maria, avó de Jesus. Sant’Ana já era venerada nas Minas Gerais setecentistas, sobretudo em regiões de mineração, sendo, então, a Senhora Sant’Ana considerada padroeira dos mineradores. Há quem veja nessa devoção um símile. Assim como as minas continham ouro em seu seio, Ana carregara ouro no seu ventre, a “bendita entre as mulheres”, como na voz de um Luciano Pavarotti. Os católicos, que constituíam quase 100% da população, legaram abundante iconografia de Sant’Ana. É emblemática sua representação como mãe e mestra, sentada, com um livro aberto e com uma menina meiga, muito atenta, de pé, ao seu lado. Imagem apropriada de mãe educadora, depois avó. Sant’Ana tem museu a ela dedicado em Tiradentes, instalado na antiga Cadeia Pública da cidade. São quase 300 imagens de Sant’Ana, de diversas regiões do país, clássicas e populares, em vários estilos. Em geral, produzidas por artistas anônimos, entre os séculos XVII e XIX. A iniciativa da criação do museu se deve a Ângela Gutierrez, devota da santa. Aí, na histórica cidade de Tiradentes, a arte, a história iconográfica e a fé se encontram irmanadas, conservadas e catalogadas com muito esmero, transpirando o ar barroco da cidade. O Dia da Vovó não tem o glamour do Dia das Mães. Avó, no entanto, é mãe em dobro. As palavras vovô e vovó têm, ambas, dois “vês”, duplo “v” de vitória. Parabéns aos vovôs e às vovós! Por favor, no dia dos joaquins e anas, não amanheças com a avó atrás do toco, irritado ou irritada, de mau humor nem amanheças de chinelos trocados nem com o pé esquerdo… Abraça tua avó e teu avô ou, se não mais os tens, manda tua mensagem ao além numa prece carregada de saudade. Rezar é mandar mensagem. Mensagens de fé. A história dos mais velhos é a história deles na linha do tempo. História vivida, em maior número de anos, rumo à eternidade.   O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com...

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OLHAI E VEDE… E POSICIONAI-VOS!
jul19

OLHAI E VEDE… E POSICIONAI-VOS!

 OLHAI E VEDE… E POSICIONAI-VOS! Por Antônio de Oliveira Quem se envolve em corrupção milionária, e bota milionária nisso, mata crianças, no sentido real, por falta de assistência à saúde, mata doentes por falta de hospitais, mata o conhecimento, por antecipação, mata pessoas em acidentes por falta de estradas decentes, mata até a esperança, que é a última que morre, mata pela desilusão e descrença dos cidadãos, mata a credibilidade ante o mau exemplo que vem de cima, mata os sonhos no nascedouro, mata o Brasil por falta de investimentos em educação, cultura, esporte, lazer, segurança, sistema prisional, patriotismo, ordem e progresso. Quem mata é… O ladrão comum rouba dinheiro, carro, celular, relógio, joias. O político corrupto, e está difícil encontrar um ficha-limpa, proporciona desassossego, rouba saúde, educação, transporte, cultura, segurança, emprego, paz… A diferença está em que o ladrão comum escolhe a vítima, o eleitor escolhe o político corrupto. Elege, reelege, reelege… Em vez de embalar como o vento a brincar nas árvores, num clima de bonança, o corrupto milionário é como o vendaval que açoita as folhas das mais altas mangueiras, turbilhão avassalador, genocida de leso-patriotismo. Muito pior do que comprar voto de eleitores desavisados ou descomprometidos é vender voto no parlamento em troca de favores, verbas e cargos… Com acerto é descrito por Euclides da Cunha o desacerto dos corruptos, em Os Sertões: “Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas”. Millor Fernandes acha “eficiente” um congresso assim: “Isto sim é que é Congresso eficiente! Ele mesmo rouba, ele mesmo investiga, ele mesmo absolve”. Eficientes, nesse sentido, o são também Assembleias e Câmaras, autoridades públicas, em geral. Antigo bordão popular já dizia: “Da barriga de mulher grávida e da cabeça de juiz nunca se sabe o que sairá…” O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia...

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PAZ NA TERRA
jul11

PAZ NA TERRA

 PAZ NA TERRA Por Antônio de Oliveira Paz na terra aos homens de boa vontade. Falecido no início do século XIX, Emanuel Kant, em sua Metafísica dos Costumes, salienta a importância ética da boa vontade (der gute Wille). “Não é possível pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade”. Boa vontade para resolver o problema da paz perpétua. Não apenas períodos de trégua, de caráter provisório, temporário. Eventuais momentos de paz numa guerra, como a dos Cem Anos, entre os reinos da França e da Inglaterra, na verdade, duração de 116 anos, na Idade Média. Pra variar, continuamos em guerra. Guerra armada, guerra fria, confrontos e conflitos, violência por todo lado, desentendimentos em família, na escola, pescoções nos parlamentos, ódio e vingança, direito torto, guerras religiosas, guerras políticas, guerras de disputa econômica, retaliações, homicídios, genocídios, destruição de monumentos históricos, artísticos, ações de vandalismo, pichações, enfim, em perpétua luta fratricida. Tomás Hobbes, que considerava a guerra inimiga do progresso, fala na instituição de um pacto livre, que identificamos aqui como boa vontade. Para ele, os homens são, por natureza, profundamente egoístas: “bellum omnium in omnes, homo homini lupus”. Guerra de todos contra todos, o homem é um lobo para seu semelhante. Uma gravura sequencial ilustra o papel da boa vontade, dos pactos, da cooperação. Dois burros atados por uma corda curta disputam duas touceiras de capim, puxando um ao outro em direções opostas. Depois de tanto puxar cada qual para o seu lado, resolvem dialogar. Por fim, chegaram a um acordo: vamos juntos comer o primeiro monte de feno; em seguida, também juntos, vamos até o outro monte de feno. E os burros, que não são tão burros assim, deram aos humanos uma lição prática de pacto livre, de boa vontade. Começamos com Kant, passamos por Tomás Hobbes, terminamos com a lição de dois… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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