VOCABULÁRIO CORDIAL
jun26

VOCABULÁRIO CORDIAL

 VOCABULÁRIO CORDIAL Por Antônio de Oliveira Do latim, órgão vital, o coração é considerado a sede dos sentimentos: de alegria e de tristeza, de dor, de condolência, serenidade, afeto. Nem sempre de bons sentimentos. Nem sempre de bom coração, significando a totalidade do indivíduo. Pode ser também um coração perverso, vingativo, um coração de ouro, generoso, ou um coração de pedra, insensível, ou mesmo sem coração. Corrupção significa ruptura moral do coração. Por certo, o coração tem razões que a própria razão desconhece. Não estou a abrir o coração com o coração nas mãos. Mas escrevo de todo o coração, sem cortar a alma. Cordialmente, pondo o coração à larga, sem o coração a sair pela boca. Três letras que estão na composição de várias palavras. Concórdia, concordar, discordar. Recordar, trazer de novo ao coração. Saber de cor é saber de coração, to know by heart, em inglês, connaître par coeur, em francês. Em italiano, ricordare; em espanhol, recordar. Para os antigos romanos, o coração era a fonte da coragem. A palavra misericórdia tem origem nos termos latinos: miser, pobre, necessitado, mísero; e cor. O primeiro evoca piedade, compaixão implorada por quem se encontra numa grave tribulação; o segundo é o coração que se condói. Na simbologia bíblica, Deus sonda os rins e o coração, isto é, conhece nossos pensamentos e sentimentos. Coração partido, broken heart, em inglês, é uma metáfora convencional para descrever intensa dor psicológica. Coração angustiado é sinônimo de coração amargurado, aflito, atormentado. Em certas situações de angústia, de perdas e danos, ansiedade antecipatória, o coração bate mais forte, ocasionando somatização do sofrimento, da perda, ou mesmo de problemas imaginários, mas nem por isso irreais no indivíduo. Em grego, coração é kardia, palavra que entra na composição de várias outras, principalmente na área da saúde, antes ou no fim da palavra: cardiologia, cardiograma; taquicardia, bradicardia. Haja coração!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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VOCÊ SABE DE ONDE EU VENHO?…
jun19

VOCÊ SABE DE ONDE EU VENHO?…

 VOCÊ SABE DE ONDE EU VENHO?… Por Antônio de Oliveira Não venho de Neverland. Isso é certo. Tampouco de Pasárgada, onde teria sido amigo do rei. Também não venho de uma terra que tem palmeiras, onde outrora se sonhava com um El Dorado e onde, alegre, cantava o sabiá, hoje silencioso e triste, triste e silencioso. Sem espaço também o cheiro de mato, água de rio despoluído logo ali e passarinhos, soltos e leves, durante as quatro as estações do ano. Essa terra está hoje interligada por espaçosos propinodutos, regida e conjugada pelo verbo propinar, na voz ativa e na voz passiva. Propinodutos onde, faceiros, circulam por pistas largas e se cruzam grandes empresários e políticos vorazes e vorazes familiares, marqueteiros e apaniguados. Terra desvirginada e estuprada, saqueada nas suas entranhas, belezas naturais devassadas pela ambição desmedida. Terra tornada árida pela dor dos oprimidos, sem abrigo e sem telhado para se protegerem do frio, do vento e das tempestades. Venho do seio materno para uma terra mãe, mãe desalmada e pouco gentil. Lá, de onde eu venho, havia amor e paz, paz e amor, amor multiplicado e compartilhado. Onde o bem era o bem maior, a corrupção não grassava. Lá se dividia o alimento com a mãe, quando então o amor materno se duplicava e o coração era coração de mãe. Não de pedra. Plácida placenta. Eis o lugar de onde eu venho. Feto. Criança anjo. Adulto. Ao tentar entender o mal, caí na real. Hoje sou um catador de gravetos de esperanças, um passarinho arisco a bicar farelinhos de fubá. Penso que o amor pulsa, primeiramente, é dentro da gente, é essência do amor dentro da gente e existência do abraço fora da gente. Luz mesmo em noite escura. Confiança em noites traiçoeiras. O amor é paz, fé. O amor se compadece. O amor é pronto atendimento. Com carinho. Talvez o momento atual nos tenha levado a desacreditar do nosso País. Mas basta a gente levar na bagagem sementes de bondade em busca de um sorriso aberto, sincero, íntegro. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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ALECRIM DOURADO
jun11

ALECRIM DOURADO

 ALECRIM DOURADO Por Antônio de Oliveira Paixão é alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Não nasceu no asfalto que obtura o solo e mata a seiva. Tampouco em terreno pedregoso. O alecrim do campo nasce em terra boa. Exala um odor agradável e forte, forte e agradável como o amor. Alecrim-de-cheiro, alecrim dourado, da cor dourada do sol, da cor do ouro, metal precioso. Anos dourados do namoro, a formar um par de ouros sacramentado pelo par de alianças. “Per amore”, o amor de namorados é suave e terno, terno e suave como o alecrim do campo. Eterno, para sempre. Nas asas do vento macio. Dois enamorados olham para o alto e contemplam os pássaros. Bartolomeu Campos Queirós pergunta: “Sabe por que pássaro se escreve com dois ss?” Ele mesmo explica: “Porque é no encontro das duas consoantes que se dá o movimento das asas”. Alecrim, pássaro, pássaro de aço, avião. Jeremias profetizou: “Uma grande águia, de grandes asas, de plumagem comprida e cheia de penas de cores variegadas, veio ao Líbano e levou o mais alto ramo de um cedro”. O alecrim é de ouro, pássaro tem dois ss num encontro de duas consoantes, num encontro de namorados que consoam num par consonantal, num cenário idílico. “Per amore”, vivencia-se, no dia a dia, a estrada palmilhada a dois, Perguntas oportunas inspiradas na canção: Por amor… Você já fez alguma coisa apenas por amor? Por amor… Você já desafiou o vento e gritou? Por amor… Você já esgotou a razão, como o nanquim do pincel de um pintor, e deu razão ao coração? Você sabia que a medida do amor é amar sem medida, até ficar sem fôlego? Você acredita nisso ou isso lhe parece não passar de mito, mentira, de ilusão, de utopia? E essa história, mania que a gente tem, que é gostar de alguém? Por amor… Você já se perdeu e se reencontrou e se reconciliou na vida e com a vida? Você já fez cair uma chuva de pétalas sobre seu alecrim dourado? Oi, meu amor, de décadas, quem te disse assim que a flor do campo é o alecrim? O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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LEILÃO DO MEIO AMBIENTE
jun05

LEILÃO DO MEIO AMBIENTE

 LEILÃO DO MEIO AMBIENTE Por Antônio de Oliveira A natureza está morrendo. Por enquanto, em agonia. Despojos a leiloar. Consequência do consumismo, da depredação, da sujeira, da poluição, do desmatamento, do lucro desmedido do ser humano considerado a medida de todas as coisas. Um quadro de desolação ambiental como o de pós-desastre ecológico de Mariana, de proporções avassaladoras do sistema Terra, consequentemente dos seres vivos. Não bastassem as forças da erosão que eventualmente castigam e desfazem a beleza paisagística de bosques, pradarias e montanhas. À sombra de uma árvore, de águas abundantes em seus limites, um banco tosco se torna macio. Como é desolador o ambiente do leito seco de um rio outrora caudaloso ou de uma bica que corria incessante. Quando, então, não mais se ouve o som puro de seu marulhar cadenciado. Da cadência da natureza. Em 1984, versejando como de hábito, Carlos Drummond de Andrade já fazia os cálculos: “De cada cem árvores antigas /restam cinco testemunhas / acusando o inflexível carrasco secular. / Restam cinco, não mais. Resta o fantasma / da orgulhosa floresta primitiva”. Imensamente mais significativo que o tapete vermelho de astros e estrelas de Hollywood é o tapete verde da natureza sobre a superfície da terra. Imagem, aliás, de Monteiro Lobato: “A natureza criou o tapete sem fim que recobre a superfície da terra. Dentro da pelagem desse tapete vivem todos os animais, respeitosamente. Nenhum o estraga, nenhum o rói, exceto o homem”. Palavras adultas e atuais, tanto de Drummond como de Lobato. Na medida certa, o dinheiro tem seu lado utilitário: põe a mesa, financia o livro, alimento da alma; paga o remédio, banca o progresso, o lazer. Entretanto, por detrás do dinheiro e atrás dele, essa fúria devastadora em busca de mando, prestígio, poder, glória. Ambição, muita ambição. Propinas que escorrem por um saco sem fundo, ou por um encanamento volumoso. Descaso sem medida e sem fim, desmedido, inconsequente… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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O ELOGIO DA IGNORÂNCIA
maio31

O ELOGIO DA IGNORÂNCIA

 O ELOGIO DA IGNORÂNCIA Por Antônio de Oliveira Por que não? Pois não existe o livro O Elogio da Loucura, escrito por Erasmo de Rotterdam? A ignorância é uma bênção. Pensar dói… Essa percepção, doida e doída, eu ouvi de uma jovem questionadora. Sem dúvida, nossos políticos sabem disso e, por isso, muitos preferem manter o povo na ignorância, não dando a mínima para a educação. Sabem por intuição que ninguém ama o que desconhece. Inteligência sem descortino é mais fácil de ser manipulada. Santa ignorância! Incapacidade de ver longe, de antever, de prever e de predizer. Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes interpretado por Paulo Gracindo, na novela “O Bem-Amado”, de 1973, repetia a frase: “A ignorância é que atravanca o progresso”. Isso toda vez que alguém dizia uma besteira. No papel de Ofélia e contracenando com Lúcio Mauro, o Fernandinho, a atriz Cláudia Rodrigues a repetir o bordão: “Eu só abro a boca quando tenho certeza”. Isso depois de dizer uma porção de bobagens. Zé Bebelo, personagem de Guimarães Rosa, “Trepava de ser o mais honesto de todos, ou o mais danado, no tremeluz, conforme as quantas. Soava no que falava, artes que falava, diferente na autoridade…” Homem inteligente, intrujava de tudo. Quanto mais alto se sobe mais amplo se nos apresenta o horizonte. Mais fácil, então, falar sem pensar. Viver é mais difícil que apenas existir. A condição natural dos corpos não é o repouso, mas o movimento. Movimentar-se, no entanto, custa. Às vezes, até dói. Praticar atividade física requer esforço e força de vontade. Alimentar-se moderadamente e viver bem requer educação alimentar. Andar num shopping sem atropelar os outros, principalmente os mais velhos, requer atenção. Não falar alto, de modo a incomodar os circunstantes, implica moderar a voz, monitorar-se. Fazer silêncio onde não se deve conversar, numa igreja, num hospital, não fazer silêncio altas horas da noite para não incomodar os vizinhos.Tudo isso é saudável, mas “dói”. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia...

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PECADO SEM CULPA
maio23

PECADO SEM CULPA

 PECADO SEM CULPA Por Antônio de Oliveira “Quando eu, político eleito para representar o povo, deixo de declarar uma mansão ao imposto de renda, uma casinha modesta, aqui no bairro Paraíso Fiscal de Brasília, ou noutro lugar privilegiado, deixo de fazê-lo por um lapso. Meus advogados nem para me lembrarem desses detalhes. Ah! Esses… Além disso, receita é receita. O bolo vem depois dos ingredientes devidamente dosados, negociados e distribuídos leoninamente. Quem parte e reparte fica com a melhor parte. Todo o mundo sabe que leão é um animal selvagem. Não dá para facilitar. Prefiro nem chegar perto. Mantenho distância. Idiota de quem se deixa abocanhar. Minha vida é um livro aberto. É verdade que, às vezes, surge uma denúncia, denunciazinha, alguns milhões apenas, marolinha, mas tenho Deus por testemunha, é tudo intriga da oposição, ilações de uma imprensa mafiosa e denuncista, fascista, que prejulga, não prova nada. No mais, tanto escândalo neste país! Em pouco tempo um encobre o outro e deixa tudo empilhadinho na seção DP (Decurso de Prazo). Ninguém nunca provou minha ligação com traficantes nem com empresários suspeitos ou que eu tenha dinheiro no exterior. Também não sou muito de laranja, não distribuo nada para minha família, meus parentes que façam concurso. Minha fortuna, fruto do infortúnio de muitos? Não é bem assim. Inveja do empreendedorismo, meu e dos meus apaniguados. Disse e repito. Esqueçam o que eu escrevi. Pela direita, te locupletarás acintosamente. Esqueçam o que eu dizia. Era o contexto. A luta continua… Quem disse que não? Pela esquerda, te locupletarás aleivosamente. Pra que juntar tanto dinheiro? Perguntam alguns otários. Como é bobinho esse pessoal da ética. Até parece ONG ambientalista. Posso ser adepto da propina, mas rendo homenagens à transparência. Sigo à risca esse catecismo. Que até pode rimar com cinismo, mas estou longe disso. Conto com a indulgência suprema do foro privilegiado. Que me redime dos pecados.” O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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