Era Uma Vez…
abr26

Era Uma Vez…

 Era Uma Vez… Por Antônio de Oliveira Era uma vez um rincão ao qual, uma vez “achado”, foram dados os primeiros nomes de Vera Cruz e depois Santa Cruz. Os descobridores ficaram doidos com a região recém-descoberta, que lhes pareceu um Eldorado. Segundo a lenda, um homem todo-poderoso, em espanhol, El Dorado, tinha por hábito espojar-se no ouro em pó, para ficar com a pele dourada. Coincidência, mais tarde, descobriu-se ouro, muito ouro, nas suas minas gerais. E aí o El Dorado foi literalmente despojado em suas entranhas, procedimento sempre seguido pelos caciques de cá e pelos colonizadores al di là. A plebe eldoradense e os inconfidentes eram, e continuam sendo tratados “manu miltari”, coercitivamente, por militares e não militares: grilhões, forca, exílios, tributos escorchantes, escravidão, trabalho escravo, desemprego, subemprego, discriminações, inflação, juros altos. Para uma elite: mordomias, foro privilegiado, imunidade parlamentar, fome insaciável de poder, continuísmos, tudo formalmente sob a égide de que “todos são iguais perante a lei”. Belas chorumelas, lengalenga uma atrás da outra, uma depois da outra. Desde o início, à medida que o seu litoral ia sendo desbravado, os lugares recebiam os nomes dos santos do dia: São Miguel, São Jerônimo, São Francisco, São Tomé, São Sebastião, São Vicente, Todos os Santos… Memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a fé e o império, mas também a desigualdade desigual, opressão, silêncio dos inocentes, menosprezo. Cultura nacional focada no QE, Quociente de Esperteza, no jeitinho, na propina, na conjugação do verbo roubar por todos os tempos e modos e do levar vantagem em tudo. E assim, era uma vez um florão, uma terra garrida, ao som do mar e à luz do céu profundo, campos floridos, bosques viçosos. Uma natureza exuberante, um povo moldado na submissão. Nessa “pátria mãe tão distraída…” Entretanto, há quem ainda tenha esperança. Desesperadamente. Pois não, desesperar jamais!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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Renovação Pascal
abr16

Renovação Pascal

 Renovação Pascal Por Antônio de Oliveira Caindo em terra, se o grão de trigo não morre, permanece infecundo; se morre dentro da terra, produz muito fruto. Também um lavrador plantou, no seu sítio, um pequenino broto. Esse broto agradeceu a terra fértil e germinou uma árvore. As aves do céu vêm aninhar-se nos seus galhos. Páscoa (Pessach) é convite para uma reflexão séria de renovação, de alma lavada a jato, enxaguada, de roupa nova, de veste branca; de balanço espiritual, de revisão de conceitos e comportamentos. Todos nós realizamos a nossa páscoa, seja pela presença de cada pessoa fazendo a história da humanidade seja pela própria história da humanidade. Independentemente de pontos de vista ou de crenças pessoais, é a mesma estrada da vida por caminhos de pedra. Passagem de uma dimensão para outra. Travessia do mar, vermelho de sangue da escravidão para a terra onde corre leite e mel. Passagem do homem velho para o homem novo, renascido espiritualmente sem ter que voltar ao seio materno. Do ódio ao perdão. Vingança não! Da corrupção ao mea-culpa e à reparação material. Do radicalismo ideológico e religioso ao respeito mútuo. Das trevas à luz. Da morte à ressurreição. Repartir o pão. Pão da vida, pão da cultura, pão do saber, pão da dignidade humana. As bombas cessem de semear a morte, dê-se reconciliador aperto de mãos. Da descrença nacional à utopia afogueada do El Dorado perdido. Minha casa agora é minha. Não era meu aquele lugar. Páscoa, em 2017, é apanágio de esperança num Brasil melhor: na política, na distribuição de renda, no combate à violência, à corrupção, à demagogia, à falta de ética no dia a dia e na vida pública. Dentro de um mundo dinâmico, renovação depende de nós e carece de revisões periódicas, manutenção, combustível espiritual, calor divino e humano. O povo está cansado de uma classe que entronizou para si o arbítrio e o privilégio. Honestidade já!… Essa a maneira de “passar” o país a limpo. Feliz Páscoa de renovação!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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No Topo das Montanhas
abr12

No Topo das Montanhas

 No Topo das Montanhas Por Antônio de Oliveira Roberto Carlos, cantando, diz que vai seguir uma luz lá no alto, ouvir uma voz que o chama, subir a montanha e ficar bem mais perto de Deus. E rezar, gritar para o mundo ouvir, acompanhar toda a sua escalada e ajudar a mostrar como é o seu grito de amor e de fé. Irá pedir que as estrelas não parem de brilhar e as crianças não deixem de sorrir. Que os homens jamais se esqueçam de agradecer. Moisés recebeu os dez mandamentos no Monte Sinai. Do cume do Monte Nebo, Moisés avistou a Terra Prometida sem nela poder entrar. Elias ouviu a voz de Deus no Monte Horeb e, no alto do Monte Carmelo, Elias batalhou contra os 400 profetas de Baal. Situado na parte norte da Cisjordânia, o Monte Guerizim é local de adoração dos samaritanos. Culto mencionado pela mulher samaritana, na conversa com Jesus, junto ao poço de Jacó. Local de adoração a Deus, para os judeus, o Monte Sião localiza-se em Jerusalém, ao lado da muralha da Cidade Antiga. Jesus se transfigurou no Monte Tabor, na Galileia. O Monte das Oliveiras situa-se no setor oriental de Jerusalém, separado do Monte Moriá, pelo Vale do Cedrom, também conhecido como Monte da Provação. Aí, o sacrifício de Isaac foi interrompido pelo anjo do Senhor. Monte das Tentações, localizado na cidade de Jericó, Monte das Bem-Aventuranças, Monte Calvário, Monte Ebal. Montanhas, montes e colinas são lugares de manifestações religiosas. No Brasil, destaque para o Corcovado, no Rio de Janeiro, e para os inúmeros cruzeiros, capelas e ermidas no alto das serras. Em Minas, destaque para a Serra da Piedade. Pelo mundo afora, mosteiros dependurados em penhascos, onde monges harmonizam sentimentos, força de vontade, fé, oração, trabalho, recolhimento, meditação. Goethe, alma de alpinista, situa nas alturas o reino da paz: “Über allen Gipfeln ist Ruh”. Atingido o  cume do monte, a pura leveza do montanhista. De lá se avistam os reinos do mundo e a glória deles. Hosana nas alturas!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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Aviso aos Navegantes
abr07

Aviso aos Navegantes

 Aviso aos Navegantes Por Antônio de Oliveira Hoje em dia, através da mídia, falada e escrita, jornais, revistas, e também nas redes sociais, o noticiário dá ênfase à política. Infelizmente, porém, acompanhado do “nada se fez, nada se faz, nada se faça, nada se fará sem propina”, ou sem fome de cargos. Já não existe a representatividade, senão a autorrepresentatividade. O povo é uma sombra, embora acolhedora, pois é quem dá cobertura aos gastos públicos em face do pedestal do foro privilegiado. A democracia deixou de ser divisa de um partido sequer. Não há pureza de intenções, muito menos vontade política de atender às necessidades da população, que vive se virando ou se vira para sobreviver ou se vira como pode. A corrupção tomou conta. Nenhum político abre mão de seus privilégios, por eles mesmos legislados. Tá difícil. Difícil passar o país a limpo. A inflação continua. Para piorar a situação, burocracia e proliferação de taxas. O povo tem sua parcela de responsabilidade, pois elege e reelege corruptos. Anos depois do início da operação Lava-Jato, nenhum político foi condenado no STF. Grandes empresários têm culpa. Mas muitos deles estão indo para a cadeia. Por falar em cadeia, nossos presídios se transformaram em gaiolas de sentenciados, gerando incontida revolta e refinamento de ações criminosas planejadas e comandadas dos presídios. A bola da vez é a Previdência, mas o regime de aposentadorias especiais continua intocável. O Brasil carece de um mea-culpa das autoridades e de um começar de novo. Nossas instituições podem estar funcionando, mas estão carcomidas. E quem sou eu para dizer essas coisas? Apenas estou tentando resumir o que se ouve nas ruas, no comércio, nos botecos, nas escolas. E nos hospitais públicos. Aí o paciente, em estado lastimável, nem tem condições de lastimar, de reclamar, mesmo que seja reclamar por reclamar. Não se trata de seguir a máxima “Si hay gobierno, soy contra”. Trata-se, tão-somente, de mais um alerta. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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Manhã na Roça
mar28

Manhã na Roça

 Manhã na Roça Por Antônio de Oliveira Beleza rural: por muitos, apreciada; por outros, desconhecida; por outros, ainda, descaracterizada, depredada, devastada. Manhã. Arvoredo coberto de branco véu. Do néctar das flores exala suave e agradável aroma de deliciosa, fragrante embriaguez. Os galhos abrigam a passarada que dá voz à natureza ao romper da aurora. Cheiro de mato, de alfazema, de alecrim. Alcandorando-se nas copas de majestosas mangueiras, bandos de pássaros-pretos anunciam a alvorada. Pássaros outros gorjeando; um galo cantando. Vegetação exuberante. Aguada farta, boas vertentes, arroios a proporcionarem de beber aos animais. Manhã. Ouverture da ”sinfonia de pardais cantando para a majestade, o sabiá”. O joão-de-barro à cata de gravetos para construir, sustentar, aquecer o ninho. Galinhas ciscando, cocoricando seu hino ao amanhecer. Da soleira da porta, a a menininha atira migalhas de pão para as galinhas e seus pintinhos. Tão pequenina, e nem precisa agachar-se para acariciar seu cachorro, de nome Xodó, e desejar-lhe um bom dia de cão. A gente abre a janela para o sopro de vida entrar. Do jardim, adocicada fragrância de jasmim, baunilha. Em “Silêncio”, um personagem do filme fala para o jesuíta Rodrigues “rezar, mas de olhos abertos” porque Deus está na natureza, no som das marés, no topo de uma montanha, na bela fotografia de Rodrigo Prieto, e está no Japão e em Portugal, no Cristo e no Buda. De olhos abertos, na roça se veem galináceos a passearem pela grama, de tempos em tempos perseguidos pelos cachorros e acariciados pelos cachorrinhos brincalhões. Sobre o varal, um gato reluzente lambe as próprias patas como que as acariciando. Natureza não corrompida, avessa a guerras, ao ódio, aos horrores da violência física, achaques e assaltos dos humanos. O jardim e suas flores, as árvores e todos os animais, mugidos de gado. Cavalos resfolgando, relinchando, escarvando o solo. Nada disso deveria ser adulterado pela ruindade humano-desumana. ANTÔNIO DE OLIVEIRA O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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Bolsa de Mulher
mar24

Bolsa de Mulher

 Bolsa de Mulher Por Antônio de Oliveira Num quadro do Programa Silvio Santos era feita a seguinte pergunta às colegas de trabalho: – Quem tem uma tesourinha? E não é que uma bolsa de mulher carrega de tudo? Batom, espelho, caneta, fio dental, escova de dente, gominhas de cabelo, pinça, chocolate, filtro solar, talão de cheques, agenda, óculos escuros, molho de chaves, lenços de papel, documentos diversos, um iPad… y otras cositas más…  Esse mundo também é assim. Cheio de acessórios, penduricalhos, balangandãs, atavios, adereços, fantasias ambulantes, excelências, propagandas sutilmente mentirosas… O mundo está cheio de tudo e mais um pouco, dispensável ou não, que nem bolsa de mulher. Eça de Queirós escreveu: “Até a cruz, a forma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A cristandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é berloque; pende nos colares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho; e a cruz realmente neste soberbo século pertence mais à ourivesaria do que pertence à religião…” Depois dessa, de Eça, quase nada mais a declarar. Ora essa! Muito se fala em politicamente correto. Ninguém fala em humanamente correto. O secundário vem antes do principal. O divino, nós o mantemos sobrenaturalmente à distância. Pouco se fala no valor divino do humano. Esquecemo-nos das necessidades básicas da população. No afã consumista, criamos e alimentamos necessidades novas, dispensáveis. Tendas de ovos de chocolate em vez de feijão com arroz no prato dos necessitados, feijão com arroz surrupiado pelos desvios de verbas e outras maracutaias. Um lauto prato de bacalhoada simulando abstinência de carne. Estádios majestosos rodeados de casebres. Velórios de luxo, lápides suntuosas. Cova rasa, “com palmos medida”, é de indigente ou “de escravo humilde sepultura” (A Cruz da Estrada). Há mais preocupação em propina que em por fim à miséria. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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