A ARTE QUE FINGE…
jan17

A ARTE QUE FINGE…

 A ARTE QUE FINGE… Por Antônio de Oliveira Fernando Pessoa considera o poeta um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Para Pablo Neruda, a poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do ser humano. Vive pertinho do céu quem vive num barracão de zinco, sem telhado, sem pintura, lá no morro. Mas morar lá! De resto, não apenas o poeta, mas todo artista. Flor do pântano “ressignifica” o pântano, verbo usado na psicologia, e na psicanálise, no sentido de dar novo significado a alguma coisa, de tornar patente alguma coisa latente. Ventura desta vida é a cabrocha, o luar e o violão, o tédio transformado em melodia. Dança inspira liberdade; balé, leveza do ser; ópera, grandiosidade. No palco, conforme Molière, a missão da comédia é representar em geral todos os defeitos do homem, em particular, dos homens de nosso tempo. No nosso caso, especialmente dos políticos. Riso que vira deboche. O humor é uma arma que pode corrigir o Brasil, segundo predição de Jô Soares. A história do cristianismo é indissociável da arte sacra, nas catacumbas, na pintura, na escultura, no artesanato, na música, na literatura. Cidades históricas mineiras são bens culturais palpáveis de arte barroca, de arquitetura religiosa e de religiosidade arquitetônica, apontando para o céu. Mesquitas acompanham a história do islamismo; bem assim sinagogas, a história do judaísmo. Cantando a gente manda a tristeza embora. O samba é o filho da dor. O grande poder transformador de Gil, Caetano, Cazuza. O tango e o fado também têm sua alegria triste. “Sul monti di pietra può nascere un fiore” canta Giani Morandi. Nas montanhas de pedra, por entre reentrâncias, ainda que espremido, nasce o verde, pode nascer uma flor. Perdas são transformadas em arte cinematográfica, num rito de passagem, numa linha imaginária. A foto do garoto de nove anos vendo, do mar, a queima de fogos em Copacabana, na virada do ano, tem comportado diversas leituras. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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FALTA DE ESCRÚPULO 
jan09

FALTA DE ESCRÚPULO 

 FALTA DE ESCRÚPULO  Por Antônio de Oliveira No Brasil, temos vivido o império da falta de escrúpulos e de falsidade. De acordo com a origem da palavra, sequer há uma pedrinha no sapato de nossos políticos. Na verdade, é uma quimera acreditar num Brasil melhor ante supersalários acrescidos de penduricalhos e mordomias, tudo muito acima do que merecem pessoas que estariam exercendo um múnus público, em sentido amplo. Nunca se fala em cortar efetivamente na própria carne, diminuir gastos com o dinheiro do contribuinte e fazer mais com menos, em favor dos brasileiros. Impensável se tornou o enxugamento da máquina, um basta definitivo ao aumento de impostos e aos entraves da burocratização. Sem falar na falta de seriedade, de competência e honestidade, sem caixa dois nem propina e foro privilegiado. Aliás, privilégio, no sentido de lei para alguns, é o que mais há. Uma pauta dessas, contendo austeridade, jamais entraria para aprovação por suas excelências. Só por um milagre brasileiro. “Pátria, minha patriazinha, tadinha, lindo e triste Brasil”, canta Toquinho lembrando o Poetinha. No tocante aos privilégios, não abre mão o ateu, o agnóstico, o pardo e o branco, homem e mulher, o de esquerda, o de direita, o de credo religioso, base aliada e oposição. Todos aliados aos próprios interesses. Somente é contra mordomia quem não tem. Quem tem poder não forceja por  justiça. Excesso de burocracia interessa ao poder. Todos os partidos se esmeram em loas à honestidade. São palavras de Padre Antônio Vieira: “uma cousa é o soldado, e outra cousa o que peleja; uma cousa é o governador, e outra o que governa. Da mesma maneira, uma cousa é o semeador, e outra o que semeia; uma cousa é o pregador, e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras são as que convertem o mundo”. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: wikipedia...

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JANELAS ABERTAS PARA O MUNDO
dez29

JANELAS ABERTAS PARA O MUNDO

 JANELAS ABERTAS PARA O MUNDO Por Antônio de Oliveira Dia da Confraternização Universal. Visão holística, global, de totalidade. Não é fácil. Nossa visão de mundo em geral é fragmentada, por vezes reduzida a um mundozinho, pois não existe um limite de zoom que maximize todas as coisas para nós. “Mundo, mundo, vasto mundo…” Cada pessoa tem suas janelas, “windows”. A astrônoma brasileira Karleyne Silva admite: “Eu era uma menina introvertida. A astronomia tornou-se minha janela para o universo”. Música, esporte, botânica, outras tantas janelas. Tutameia é o título de uma coletânea de contos de Guimarães Rosa. A palavra, em si, significa ninharia, mas, no caso, é ninho que aninha “mea omnia”, todas as minhas,  todo o universo de suas obras. O mundo visto de cima, de uma aeronave, é fascinante, como o é, para o mergulhador, o fundo do mar. A janela de um trem descortina paisagens multifacetadas. Num automóvel, ao mesmo tempo em que se roda, rola pelo retrovisor o cenário percorrido. Tudo depende do olhar. O olhar de uma criança conecta o mundo. Há pessoas que viajam pelo mundo e não ampliam o seu olhar. Continuam levando uma vida sem horizontes, ou de horizonte estreito. Qualquer canto de Belo Horizonte pode ser universal, disse o diretor Helvécio Ratton, referência no cinema nacional. Para o cidadão do mundo o idioma não é barreira, não é torre de babel onde ninguém se entende, mas é uma aldeia global. Para além do Oriente e do Ocidente. Compartilhando as belezas e as dores do mundo. Combatendo a corrupção e praticando a retidão. Alegrando-se com os que se alegram e se solidarizando com os que sofrem. Revendo conceitos. Desconstruindo e refazendo o conhecimento. Para além das diversas e diversificadas culturas. Sobretudo hoje em dia, com as transformações sociais motivadas pela revolução tecnológica do computador e das telecomunicações. Dia da Confraternização Universal, com garantia estendida, do dia 1.º de janeiro a 31 de dezembro de 2018!… O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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Vampiros à solta
dez29

Vampiros à solta

 Vampiros à solta  Enquanto editora não posso ignorar os dados recentemente publicados pelo IBGE e, enquanto médica, não posso deixar de me sentir frustrada. A corrupção no poder público deveria ser enquadrada como crime hediondo, sem acesso a indultos ou a reduções de pena a que o criminoso comum tem direito. A corrupção ceifa o ânimo dos mais aguerridos trabalhadores, que não conseguem colher os frutos de seu suor; destrói toda uma nação e impõe uma qualidade de vida miserável a milhões de pessoas, levando-as à morte precoce. A falta de educação, de acesso a lazer, de condições mínimas de salubridade e alimentação, antes de matar o corpo, mata a o espírito de inanição. O ser humano fica reduzido a um animal faminto, capaz de qualquer coisa para satisfazer suas necessidades básicas. Nessa condição, se deixa escravizar, vende seu voto por promessas, mata por ninharia e explora seus próprios filhos. Caridade, amor, solidariedade são palavras que não existem no dicionário dos corruptos. Fazem de tudo para sugar ao máximo a população. São os verdadeiros vampiros da nossa era. É um mal que deve ser arrancado pela raiz. Tranca-los em uma penitenciária é muito pouco. Os bens desses parasitas deveriam ser confiscados, incluindo a dos parentes próximos, eventualmente beneficiados. Em meio a todo esse lamaçal, desnudado pela operação Lavajato, o presidente, parte dessa engrenagem obscura e apodrecida, com uma canetada, concede indulto a essa corja, que não vale uma unha do trabalhador brasileiro. Reproduzo, a seguir, alguns dos dados estarrecedores publicados pelo IBGE, que podem ser lidos na íntegra no endereço https://www.ibge.gov.br/ e se referem ao ano de 2016. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, sobre educação, publicada em 21/12/2017 revela que o Brasil hoje conta com cerca de 208 milhões de habitantes, dos quais, 66,3 milhões, com 25 anos de idade ou mais, em 2016, tinham concluído apenas o ensino fundamental. Isso representa mais da metade (51%) da população adulta do país. Aqui não está sendo levada em consideração a qualidade do ensino, pois muitas pessoas que cursaram o ensino fundamental são analfabetas funcionais (que não entendem o que leem). Situação essa bem confortável para os corruptos, pois um povo ignorante e faminto é um povo facilmente manipulável. A taxa de analfabetismo no país foi de 7,2% em 2016, ou seja, quase 12 milhões de brasileiros não sabem ler e escrever e, dessas, a proporção de pessoas pretas ou pardas é o dobro da população branca e há cerca de três anos que esses números não melhoram. O Nordeste foi a região que apresentou a maior taxa de analfabetismo, 14,8%. No Brasil, 24,8 milhões...

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ONDE É A FILA PARA VER JESUS?
dez25

ONDE É A FILA PARA VER JESUS?

 ONDE É A FILA PARA VER JESUS? Por Antônio de Oliveira Clima de Natal! Espírito de Natal? Nem tanto! Onde neva, está começando a nevar. Superlotação nos shoppings. Clientes escolhem seus presentes. Crianças aguardando, numa fila, para uma foto com o Papai Noel; noutra fila, ansiosas, pressionam os pais a comprarem os presentes que elas adoram. Fila nos caixas das lojas e do estacionamento. Filas na Praça de Alimentação. Filas para validar notas fiscais e ter direito a sorteio. Com emoção e alegria, um menino aparece, puxa a suéter da mulher, olha para cima e pergunta: Onde está a fila para ver Jesus? Ele está aqui no shopping? Não consigo encontrar! Se foi Jesus que nasceu no Natal, hoje é aniversário de Jesus. Por que não o vemos mais? Perplexa diante da criança e de sua inesperada e embaraçosa pergunta, a mulher volta-se para lhe agradecer a profunda indagação e sutil indignação. Ele não está mais. Teria sido um anjo a anunciar, não mais aos pastores, mas aos compradores: ”Porque nos nasceu um menino, um filho nos foi dado, o governo está sobre os seus ombros. Ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz”. Os olhos daquela mulher se encheram de lágrimas. Jesus nasceu para dar sua vida por mim, Papai Noel traz apenas presentes. Num piscar de olhos, ao som da trombeta, todos nós vamos ficar na fila do apocalíptico grande trono branco, diante do qual “toda língua confessará ao Senhor, todo joelho se dobrará, mas aquele que a ti escolher, o tesouro maior terá. Vem…” Mas onde mesmo está, neste mundo de templos de consumo, a fila para ver Jesus? Essa é a pergunta que faz Becky Kelley na canção “Where’s the line to see Jesus?” (https://www.youtube.com/watch?v=OExXItDyWEY) Também, pergunto eu, sem demonizar o consumo mas também sem deixar de divinizar o evento cristão. Ou, pelo menos, não me excedendo num feriado de estradas de trânsito perigoso. Um feliz Natal. Fique na fila, diante do presépio, para ver Jesus. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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NO MUNDO DA LUA
dez20

NO MUNDO DA LUA

 NO MUNDO DA LUA Por Antônio de Oliveira O amor romântico tem dado sinais de que vai sair de cena. O idílio também vai junto. Essa forma de amor poético, suave e gostoso, apaixonado, fantasioso, sonhador, galanteador, devaneador, de mitificação da mulher. Pessoas que assim se amam não mais parecem ser deste mundo. São de um mundo antigo. Dentre aqueles do amor sem fronteiras, sem necessidade de estímulo ao convívio, há, contudo, os que fazem questão de um luxuoso casamento na igreja. No caso, mero evento social, inautêntico. Um par romântico, hoje em dia, é considerado alheio à evolução, vivendo na estratosfera, no mundo da lua, par nefelibata, que vive nas nuvens. Romântico, canta Vander Lee, é uma espécie em extinção. Românticos são poucos, românticos são loucos desvairados. Sempre que posso, contemplo o nascer do Sol, mas nem sempre, talvez como a maioria das pessoas, preste muita atenção ao surgir da Lua. No entanto, esse fenômeno noturno é de tamanha beleza. Magníficas imagens dão conta do nascer da Lua em Byron Bay Lighthouse, na Nova Gales do Sul, Austrália. Outra canção romântica diz que “a noite está linda e a lua é dos namorados”. Outra ainda: “Lua, oh lua, querem te passar pra trás”. E já passaram… O amor idílico não tinha pressa. O amor hoje não pode esperar. Lua de mel não mais tem o glamour de viagem de núpcias. Frequentemente, não passa de um passeio a mais. Há mais tempo, não raro se exigia do casal a certidão de casamento para o “check in” em hotéis. Não havia motéis, havia bordéis. Os tempos mudaram. Pensão que se prezasse tinha que ostentar o aviso: Pensão Familiar. Não se falava em ideologia de gênero. Os mundos são muitos: mundo do pensamento, mundo das ideias, mundo da opinião, mundo da arte, da magia da música, do fundo do mar, do mundo visto de cima, mundo que te quero verde, todo o mundo, mundo inteiro, mundo do alvorecer, do anoitecer, “anima mundi”, mundo dos mundos. No silêncio de noites tranquilas, mundo da lua. O professor Antônio de Oliveira, cronista fascinante, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com Imagem: sxc.hu...

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